Thiago Trad lança seu aguardado disco de estreia: Moscote

Por Pérola Mathias

A música experimental feita no Brasil tem se expandido dentro de suas inúmeras vertentes. E não é só no Rio ou em São Paulo que ela está sendo feita. As demais produções podem até não estar em destaque nas mídias tradicionais, mas o que fervilha pelas outras regiões tem cada vez mais se conectado num circuito. Assim, não é a região que define o tipo de som a ser explorado e nem qual alcance ele vai ter. O que tem sido mais fundamental em todo músico hoje em dia é sua capacidade de circular e se conectar, encontrando pares e estabelecendo diálogos e trocas sonoras. É em meio a esse cenário que sai o aguardado primeiro disco de Thiago Trad, Moscote.

Moscote compõe-se de 7 faixas que nos levam pelas paisagens e experiências sonoras que Thiago veio registrando em seu caminho nos últimos anos. O passeio começa na faixa Buena, que dá o tom da mistura rítmica e de texturas que perpassam o disco, mesclando sons orgânicos e sintéticos. É, talvez, logo de cara, a faixa mais suingada do disco. A segunda faixa é Fumaça, que além de uma citação impossível de não ser reconhecida à Jah Jah Revolta, gravada pelo Baiana System em seu primeiro disco, traz a voz experimentando sobre os instrumentos.  O título também pode nos remeter ao nome de uma das principais cachoeiras da Chapada Diamantina, região que Thiago diz que o inspirou muito e onde compôs boa parte do repertório. A viagem segue pela faixa-título do disco, Moscote, que apresenta uma maior tensão entre os sons. Na metade do disco, é a vez de Calma, e segue-se para Babilônia. Nesta faixa, que pode ser para Salvador ou qualquer outra metrópole do mundo, paradoxalmente, entra o som do acordeom cigano, gravado pelo maestro Stefano Cortese, que trabalhou nos arranjos do disco. Depois de muito levar nossos ouvidos a imaginar lugares, a viagem das faixas parece ir assentando na Bahia com Piedade, numa pegada mais low fi e que traz a participação de Nancy Viégas na voz; e Purificação, que fecha o disco com uma linguagem que remete a diversos ritmos brasileiros, sobretudo pelos instrumentos percussivos e de sopro que entram na faixa, e parece ser a mais orgânica do disco.

Fotografia: Nathália Miranda

O piano é marcante em Moscote. O disco se conecta a uma tradição do jazz experimental brasileiro, que o próprio Thiago reconhece, citando como referências Egberto Gismonti, Airto Moreira, Hermeto Pascoal e Naná Vasconcelos. Mas é possível perceber que, desta escola, Thiago chega às elaborações contemporâneas em sua música, explorando possibilidades e situações rítmicas inusitadas, como a bateria gravada apenas com um microfone, tendo a improvisação livre como chave.

As possibilidades exploradas pelo músico ao piano deslocam o ouvinte logo de início, já que Thiago vem de uma longa trajetória como baterista: atuou na banda Cascadura por 15 anos, além de ter se graduado em Percussão Sinfônica pela UFBA.

Além de Thiago Trad no piano, bateria, percussão e efeitos, colaboraram no álbum Nacy Viégas, na voz e na arte gráfica; Tadeu Mascarenhas no baixo e nos arranjos; Kiko Souza no sax e na flauta; Alexandre Vieira no baixo acústico; Ldson Galter com baixo acústico e elétrico; o maestro Stefano Cortese no acordeom e arranjos; Ivan Priest no clarinete; e André Borges no sax.

Desde 2015 Thiago Trad vem levando a cabo o projeto Bahia Experimental, que agora é também o nome de sua gravadora, pela qual lança o disco, a BEX Records. O Bahia Experimental promoveu diversos encontros e oficinas de improvisação e livre criação em Salvador, em outras cidades baianas como Santo Amaro e Juazeiro, bem como aportou em Porto Alegre e rompeu as fronteiras nacionais, chegando até Montevidéu, Buenos Aires e Berlim. Na Bahia, reuniu nomes da cena local como o maestro Letieres Leite, Gabi Guedes, Manuca Almeida, Mou Brasil, Roberto Mendes, Enio Nogueira, dentre muitos outros. Já nos demais lugares, Thiago levou muitas vezes sozinho o projeto, reunindo nomes de cada cena local para realização do projeto.

Além de movimentar um circuito de criação e integrar músicos diferentes, a força da expressão e do trabalho de Thiago Trad aparecem agora de maneira primorosa em Moscote, que vem sendo anunciado pelo menos desde 2016.

A distribuição do disco fica a cargo do Sê-Lo Netlabel, outra instância fundamental para a música experimental no país, que vem lançando peças de nomes fundamentais da Bahia, do Brasil e do mundo, como George Christian, Löis Lancaster, Bartolo, a Spio Orchestra e Micah Gaugh, além de ter criado o Ciclo de Música Contemporânea Livre na cidade de Salvador, em que se apresentaram Ute Wasserman, Thomas Rohrer e Harris Eisenstadt.

O disco já está disponível na íntegra.

Bandcamp: http://selonetlabel.bandcamp.com/album/moscote

Pérola Mathias

Socióloga, pesquisa música e gosta de fotografar shows. É editora da Revista Polivox e do site Poro Aberto.

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