Novas formas de ouvir e uma playlist sobre o amor

Por Pérola Mathias
“Para entender como bate
O coração de uma mulher
É preciso ter sentido algum dia na vida
Um pássaro preso entre as mãos”
Pássaros, mulheres e peixes – Alessandra Leão e Xico Sá

A forma como ouvimos música parece ter mudado definitivamente, mas ainda estamos tentando compreender todas as questões envolvidas nesse processo. Como prestamos atenção a uma faixa ou álbum num mundo cheio de distrações; como essa música chega até nós; em que formato ela chega; como é produzida; como vai ser lançada nesse período de dominância dos streamings etc. As playlists começam a ocupar um lugar central nesse debate, seja com relação à forma de consumo; se substitui ou não a criação do álbum; a proeminência da curadoria; o capital social e simbólico de quem divulga – e, consequentemente, quem e quantas pessoas vão escutá-las; a divisão de tarefas entre o que é o trabalho humano e o que é o algoritmo na divulgação musical, dentre várias outras coisas.

Nas plataformas de streaming, as playlists tem sido organizadas por temáticas funcionais. Ou seja, muitas vezes elas existem menos de acordo com um gênero ou estilo e mais em torno de um fim: música para correr, para acordar, para o trânsito caótico, para o trânsito leve, para transar, para escovar os dentes, para botar no baile e por aí vai. Se por um lado a música pode acompanhar um momento de quase meditação ou ser um estímulo em ocasiões como o exercício físico, em outras ela parece  ser um acessório, uma paisagem de fundo ou até mesmo inadequada para tal ocasião.

Claro, eu também atribuo funções às minhas músicas favoritas. My sweet Lord é perfeita para um domingo de sol. Você não entende nada é ótima para preparar o almoço. Às vezes só quero pegar a linha amarela às 16h ouvindo True Love Waits e me sentindo a pessoa mais triste do mundo, por me sentir de fato.  No último voo que peguei, Kamasi Washington me pareceu uma trilha épica para o momento que precede a aterrisagem – misto de pânico e alívio. E caso saia para correr no Ibirapuera com fones, certamente não estarei ouvindo Milton Nascimento.

Escrevo tudo isto porque fiz uma playlist de canções que falam sobre o amor e que acompanharam minhas recentes dorzinhas no peito ou sorrisinhos de canto de boca enquanto ninguém olha. Algumas delas  são músicas atuais que me parecem que já nasceram clássicas. Seja pelo trabalho com a tradição da canção, no artesanato com a letra e a melodia, expressando o nosso tempo; seja por fugirem do amor romântico e falarem sobre um sentimento, uma sensação ou uma experiência  de estar no mundo que talvez caracterizem até melhor o amor do que falar sobre uma relação em específico. Ou por trazerem alguma novidade não apenas poética, mas também estética sobre o formato. Enfim, das 20 músicas listadas, o amor está contemplado de inúmeras maneiras. E é uma seleção pessoal, incompleta, passional, sem muita lógica ou combinação prévia.

São canções que vem ocupar com frescor o imaginário popular, dando um respiro para nossas cabeças viciadas nas canções que tocam no radio há vinte anos sem dar lugar aos novos compositores. Algumas imagens criadas por versos hoje clássicos do cancioneiro popular são aqui renovadas – são outras visões, novas poéticas, imagens reformuladas. Não que devamos jogar fora as que temos, que são incríveis, quero apenas chamar atenção para o fato de que tem uma poesia linda no novo cancioneiro brasileiro, seja ele ligado aos medalhões, como músicas novas de Caetano Veloso e Chico Buarque dos últimos discos, como Por quem, do Zii e Zie; ou por compositores novos, como Zé Manoel, Luiza Brina e Daniel Medina; ou por músicos que, para mim, são, além de musicistas e compositores incríveis, também grandes pesquisadores, como Alessandra Leão e Siba. Enfim, poderia explicar a presença de cada canção nesta lista (que vai continuar aumentando), mas é melhor que escutem a música que está sendo feita – antes que enterremos a obra

“Não pretendo juntar os meus pedaços
Só queria esquecer a voz da fera
Para que cicatriz se a carne espera
Sob o vão da ferida mais um corte”
Ariana – Siba

Pérola Mathias

Socióloga, pesquisa música e gosta de fotografar shows. É editora da Revista Polivox e do site Poro Aberto.

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