O Novíssimo Edgar e Nômade Orquestra: dois shows

Por Pérola Mathias

Numa passagem do conto O Perseguidor, de Cortázar, em um determinado momento Bruno, a personagem que narra a história, ao acompanhar o músico Jhonny Carter, diz: “Que a música salve pelo menos o resto da noite, e cumpra a fundo uma das suas piores missões, a de nos colocar um belo biombo diante do espelho, apagar-nos do mapa durante um par de horas”.

Muitas vezes, esse é um dos sentidos que a música pode tomar como experiência. A interpretação dessa colocação para mim, no entanto, não pode se dar em um único sentido. Se a música (e a arte) é essa linguagem e expressão que, ao entramos em contato com ela, consegue fazer com que nosso ego não seja o condutor principal da existência, isso pode ter como consequência: ou uma suspensão do tempo regulamentar; ou é a poderosa arma para que, livres de uma auto-imagem, consigamos olhar o mundo imbuídos de alteridade.

Esta ideia tem a ver com dois excelentes shows que assisti na terça (6/3) e na quarta (7/3) passadas: O Novíssimo Edgar, no Mundo Pensante, e a Nômade Orquestra, na Casa de Francisca. Edgar foi acompanhado pela banda Dexfvtvrv, composta por Ruy Rascassi no baixo; Guilheme Nakata na bateria; Luiz Galvão na guitarra; André Calixto no Sax/Flautas/gaita e por Leandro Archella  nas teclas – este, o único que não é membro da Nômade. E a Nômade, em seu show, contou com uma intervenção de Edgar. A parceria entre os artistas vem acontecendo já há um tempo e o resultado apresentado é um diálogo intenso entre linguagens artísticas diferentes, traço que tem composto a obra de ambos. Edgar acrescenta à Nômade não apenas a palavra, mas também complementa uma viagem visual já presente na proposta da Orquestra e que tem como um de seus elos o artista plástico Renan Alves. Já o show de Edgar com a banda foi o segundo apresentado por ele neste formato, e ali todos embarcaram na performatividade e no uso do figurino composto pelos artistas. O palco, inclusive, estava montado com peças de Renan, que também participou de um dos momentos da performance, e que é o autor da capa do segundo disco da Orquestra.

Edgar tem um trabalho mais ligado ao rap, ainda que seja difícil definir um estilo para ele. Sua poesia não está presa a esta estrutura e suas bases utilizam batidas e sons que mesclam diferentes ritmos. A poesia de Edgar é fina e às vezes narrativa como um conto ou crônica.  Há em suas letras uma visão acurada e sensível da vida. Há denúncia, crítica social, política e também há a vida cotidiana em suas catástrofes e possíveis  belezas. É neste sentido que ele parece criar uma narrativa mista, que torna seu trabalho único e potente. Em “Protetora dos bêbados e mal amados”, lançado em 2017, por exemplo, participam Juçara Marçal e Kiko Dinucci, trazendo elementos do noise, e o MC Rodrigo Brandão. A letra de “Sagrada Família” é um exemplo deste movimento de aproximação e distanciamento que ele consegue fazer na composição. 

Já a Nômade Orquestra é uma viagem sonora astral. São 5 músicos tocando instrumentos de sopro variados, mais bateria, percussão, baixo, teclado e guitarra. A sonoridade da banda passeia pelas inúmeras vertentes do jazz, por influências do rock e do blues, do funk e da música oriental (o que pode ser melhor explorado depois, em outro texto, dissecando as faixas dos dois discos da banda). Mas também muito da música brasileira, que é por essência miscigenada. As referências às vezes são explícitas, como nos samples de “Se eu quiser falar com Deus”, cantado por Elis Regina em “Sonhos de Toquio” (do primeiro disco) e de “Louvação a Xangô”, do disco Louvação aos Orixás de José Ribeiro de 1976, em “Estrada para camomila” (do segundo disco). E cada um dos 10 integrantes da orquestra contribui com uma influência e com uma experiência diferente com a música, que vem de pesquisas e de seus trabalhos em projetos anteriores ou paralelos. Como o guitarrista Luiz Galvão, que além da Nômade toca nas bandas Otis Trio, de jazz, Giallos, que aproxima o punk e o free jazz, e que é um nome de destaque no circuito de improvisação livre, tanto em São Paulo como em Santo André. Outro membro da banda é André Calixto, que toca sax, flautas e gaita e também pesquisa a cultura indiana e a prática da yoga, trazendo alusões, timbres e instrumentos diferentes da música ocidental – o que é marcante nos dois discos lançados. 

Tanto Edgar como a Nômade Orquestra vêm do entorno da cidade de São Paulo. Edgar de Garulhos e os músicos da Nômade vêm do ABC, vindo se apresentar e compor um dos núcleos mais férteis da produção artística que acontece na cidade. Este dado é interessante para pensar a cena atual em São Paulo. Pois a movimentação parece corroborar com a velha ideia de que São Paulo é o lugar onde a arte e a cultura acontecem. Além de tocarem nos clubes e casas de suas cidades, deslocando esse centro cômodo que foi imposto e que reforçamos. E quantas vezes nós, público, estamos dispostos a circular para acompanhar essa produção e descobrir o que tem sido feito nos outros lugares? Lugares que estão, inclusive espacialmente, muito perto de nós.

Cada vez mais vem me interessando mapear a cena complexa e rica do ABC, que não está restrita apenas a Santo André, São Bernardo e São Caetano, mas, como explica Luiz neste texto, no ABCDMRR: além das cidades citadas, entram aí Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. E é apenas esta última sigla, mais completa, que dá conta da origem dos 10 integrantes da Nômade. Toda a região, conhecida por ser um polo industrial e por ter gerado o maior movimento sindicalista  do país, pode ser olhada hoje como um caldeirão cultural, artístico e estético dos filhos desta geração que lutou e  ajudou a criar um país que tornou minimamente possível a produção artística nas últimas décadas. Todos estes fatores são importantes e ainda estão por ser pensados em profundidade, porque, como canta Edgar: “Quem não gosta de política por quem gosta é governado”. 

Para fora de casa e de São Paulo, Edgar e a Nômade Orquestra vêm rodando o Brasil com seus trabalhos. E a Nômade tem feito turnês internacionais também com seu som.  Aliás, o segundo disco deles foi lançado pelo selo inglês Far Out Recordings, que tem em seu catálogo nomes como Azimuth, Arthur Verocai, Dj Dolores, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos, Marcos Valle, etc.

Neste movimento entre a casa e o mundo, o sentido do deslocamento acaba assumindo  inúmeras direções, em que qualquer tipo de fronteira tende a ser esmaecida, mas sem apagar as peculiaridades que dão identidade ao trabalho dos músicos. O movimento é de expansão sempre: e talvez não sejamos nós que somos apagados do mapa ao imergir numa experiência com a música, mas a própria ideia de um mundo cartografado na representação do mapa, tendo este como signo que cria balizas para um determinado tipo de organização da vida.

 

Foto: Nômade Orquestra e Edgar por Pedro Ladeira

Pérola Mathias

Socióloga, pesquisa música e gosta de fotografar shows. É editora da Revista Polivox e do site Poro Aberto.

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