Luz e sombra em forma de som

por Vanessa Gatti

Um espectro ronda o Rio. Ele surge de um portal letal barra pesada, entre luz e sombras, com mensagens do holandês voador, lendário navio fantasma que não pode atracar. Em meio a tercinas do baixo que de cara nos leva aos anos 80, ouvimos os gritos do espectro, provocando uma sinestesia entre luzes e sons. Assim tem sido noites oníricas embaladas por Tantão e os Fita. Carlos Antônio Mattos, vulgo Tantão, figura icônica do underground carioca e um dos idealizadores da banda pós-punk tropical Black Future, além de artista plástico, agora acompanha Os Fita (Cainã Bomilcar e Abel Duarte) nas noites cariocas. O álbum Espectro (2017) lançado pelo selo QTV tem uma pegada fantasmagórica e que faz dançar nostalgia mas também incomoda, numa espiral de destruição. Sobre arranjos eletrônicos e ruídos metálicos,  Tantão, com sua voz sepulcral, combina palavras repetidas incessante e desesperadamente, formando paisagens áridas ou labirínticas.

Como amante de música, curiosa de experimentalismos e pesquisadora de sons, mas também indignada com o turbilhão de bizarrices desses tempos sombrios, a busca por uma voz perturbadora que me acompanhe é diária, e o disco Espectro me encantou em seu incômodo. Vem bem a calhar uma trilha sonora afiada e apocalíptica diante do espetáculo cotidiano de retrocessos. Os gritos de Tantão soam como que redentores da garganta dele, minha, nossa.

Tantão parece ter retornado como espectro com recados do holandês voador:

Sem porto para atracar
Somente o mar
Somente o mar
Navegar

Os versos de “Refugiados” caoticamente entoados numa paisagem sonora composta por ruídos viciados e nauseantes, somados às imagens projetadas de um barco naufragando, uma janela de embarcação sendo fitada de dentro e um sujeito correndo esquecido num deserto, logo nos aproxima da experiência dos refugiados sírios. A insistência dos versos nos coloca a frente ondas infinitas de impotência e desalento.

Os shows transformam a casa numa pista de dança hipnótica, com a projeção de imagens que dão novo significado aos sons e palavras, mais elementos para as músicas-enigmas. Tal combinação também compõem os vídeo-clipes de algumas faixas, como em “Portal”  com imagens de fanáticos por vulcões a beira da lava, do filme Visita ao Inferno de Werner Herzog. Vale ressaltar as bases feitas de improviso pelos Fita, embalados pelos caminhos tortuosos da mente de Tantão. O disco Espectro foi gravado assim: em uma só noite, numa paulada.

Nessa bem sucedida mistura de niilismo eletrônico-industrial-pós-punk com o esquema cru do funk, com Tantão encarnando um “MC de noise”, o trio rompe com barreiras do tempo e de estilos e criam cenários distópicos bem condizentes com nossos tempos.

Confira o disco Espectro no Youtube

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Vanessa Gatti

socióloga, mãe do Mário e viciada em música.

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