Karina Buhr

Entrevista: Ananda Zambi, Paula Carvalho, Pérola Mathias, Rafael Julião.
Fotografia: Daryan Dornelles. Transcrição: Bruno Cosentino.
Edição e revisão: Pérola Mathias. 

de salvador a recife
Pérola Mathias – Karina, pra começar, eu queria saber como foi sua primeira conexão com a música, como era seu ambiente familiar – se seus pais ouviam música, se ainda morando em Salvador, você tem alguma lembrança musical, alguma memória afetiva da cidade.

Karina Buhr – Quando eu era pequena, eu morava em Salvador, mas minha mãe era de Recife, e meus avós, pais da minha mãe, moravam lá. Então, morando em Salvador, eu também ia para Recife nas férias. Quando fui morar em Recife, eu tinha 7 anos, e também ficava indo para Salvador e interior da Bahia nas férias. Sempre ficava lá e cá. Em Salvador tinha uma coisa muito forte de rádio, rádio nos anos 1980 – eu nasci em 1974, era o puro ouro -, ficava ligado o dia todo e só tocava música boa. Eu lembro de bloco afro também em Salvador. Em Recife, morei na casa dos meus avós e meu avô tocava piano, tocava Mozart, Beethoven, e minha mãe – também minha vó, por parte de mãe – me levava sempre pra mamulengo, bumba-meu-boi, carnaval, essas coisas com as quais depois eu fui me envolver completamente, de frevo, maracatu, ciranda, afoxé, caboclinho. Era uma família assim. Meu avô e minha avó eram muito católicos (no bom sentido, eu costumo dizer). Tinha uma coisa muito forte das comemorações, tinha Cavalo-marinho na época de natal, procissão – eu amava ir na procissão com minha avó quando era pequena – e as músicas lindas – eu amava as músicas de procissão -, que era outro planeta, era na Avenida Caxangá, lá em Recife, uma procissão das mulheres com os netinhos e a gente ia, cortava o papel com aquela tesourinha de dedinho – eu lembro muito dessas músicas também. Então, era isso, carnaval, piano com música clássica, música de procissão – tudo misturado – afoxé, samba-reggae – e eu gostava de todas essas coisas. E tem uma parte alemã dessa família, que é o meu avô pai da minha mãe – é muito louco isso. Meu pai é do interior da Bahia; minha mãe de Recife; meus dois avós por parte de pai são do interior da Bahia; minha avó por parte de mãe é de Paulista, uma cidade de Pernambuco; e meu avô por parte de mãe é alemão. Então, eu sou descendente de alemães (risos). Era muito cheio de festa e de música também, né?

Paula Carvalho – E aí você começa a tocar no maracatu, no Piaba de Ouro, se não me engano, com Salu, depois com Siba, queria que você contasse também como você conhece essas pessoas.

Karina Buhr – Eu falava há anos que era em 1994 que eu tinha começado a tocar, mas eu descobri quinze dias atrás que foi em 1991. E realmente algumas coisas não batiam. Eu recebi umas fotos há uns dias e peraí, isso aqui é estandarte do Boi da Gurita Seca, que é o boizinho que virou a Bicharada, que Siba é o mestre e tem uma galera, e eu bordei a roupa do boi no primeiro ano. E aí vi essa foto: “ah, essa foi o primeiro ano do boizinho”, 1991, então, ixi, volta tudo. Nesse mesmo ano eu toquei no Piaba de Ouro, na verdade eu fui baiana do Piaba de Ouro. Baiana canta e dança ali, só que eu sempre quis tocar, mas lá mulher não podia tocar e pronto. Só que como no carnaval você passa muitos dias, de manhã até de noite tocando, tocando tocando, sai bem cedinho e vai pra todo canto e toca o dia todo, então, eu acabava tocando também. Eu não tocava nas apresentações, quando chegava nas prefeituras, aí não tocava, mas tocava muito, mesmo sendo baiana, muito não, mas dava uma cansadinha e estava lá mesmo sem ser oficial. E, depois, eu entrei no Estrela Brilhante, que foi o primeiro lugar onde eu pude tocar realmente. Quando eu entrei tinha já Cristina Barbosa, Virgínia Barbosa e Neide Alves tocando. Eu acho que um ano antes elas já estavam lá, durante alguns anos foi só a gente, de mulher, tocando em todos os maracatus, não tinha nenhum outro que tinha mulher tocando. A gente fez um núcleo da gente junta, as quatro, de enfrentar as coisas. E nessa época eu já estava convivendo – quando eu comecei, que eu cheguei no Piaba de Ouro, eu fui me envolvendo mais nas coisas a partir desse envolvimento com a galera do Mestre Ambrósio, não só Siba, mas Hélder [Vasconcelos], Maurício [Badé], que hoje toca comigo, de ir pro interior, Cavalo-marinho, é uma coisa que eu comecei a ir, a acompanhar mais de perto. Foi a época que começou o Boi da Gurita Seca, o Piaba de Ouro, depois eu fui para o Estrela Brilhante, que é maracatu nação, que é um contexto completamente diferente de maracatu de baque solto. Aí sempre fiquei nesses mundos, que é um pouco diferente, o maracatu rural, o baque solto, mas eu tocava também num bloco de percussão no carnaval, que é mais pro afoxé, e aí eu fui tocar no Afoxé Ilê de Egbá, aí passei uns quatro anos lá, acho que foi até 2001. 

manguebeat, maracatu, afoxé, mulheres
Paula Carvalho – Você estava em Recife e começou a ir para os maracatus na zona da mata, na zona norte. Hoje em dia a gente vê que esse tipo de movimento segue acontecendo, mas mudou muito a forma como se pensa essa relação pop e popular. Acho que o mangue beat tem muito a ver com isso, ele tem uma potência muito grande, porque sempre resgatou – desde trazer Lia de Itamaracá de volta, trazer os mestres da ciranda de volta e isso permite que a coisa vá se renovando. Eu queria te pedir pra comentar sobre essas mudanças, de como era ir para o interior naquela época, e como é hoje, o que é que mudou.

Karina Buhr – Todo mundo que vai tocar, pode ser hoje também, você mergulha totalmente naquela história, a minha história sempre foi pelo ali e agora, aprender ali fazendo, pela diversão daquilo ali, pela farra de cantar e tocar ali junto. E ao mesmo tempo tinha uma galera que chegava de pesquisa, sempre muito forte nesses lugares, e isso sempre foi um conflito pra mim, porque eu nunca fui pesquisadora – nada contra, viu, gente? -, mas pela minha cara muitas vezes eu era confundida com pesquisadora e era uma coisa que eu sempre decepcionei, porque eu nunca tive essa visão. A minha visão era de estar ali junto, de aprender ali fazendo, ouvir as histórias ali dentro e, claro, a partir disso eu conhecia muito do passado, dos grupos todos.

Quando eu comecei a me afastar foi justamente quando começou um movimento muito forte de divulgação de maracatu, aqui em São Paulo principalmente, que foi muito por conta de Hélder do Mestre Ambrósio, ele começou a dar oficinas de maracatu aqui e começou a se espalhar. Ia para Belo Horizonte, para um monte de lugar, aí Walter [França] que era mestre do Estrela Brilhante na época, Walter ia com Hélder, tinha uma coisa que espalhou muito e aí começou muita gente a ir pra lá, muita gente de fora ir pra lá pro carnaval. Tem um lado bom, que é a valorização toda de tudo em todos os lugares, claro, e pros maracatus é muito importante. Mas ao mesmo tempo começou essa coisa, tinha muita mulher, aí começou a ter aula das mulheres e eu não curto isso. Nada contra mulher tocando, muito pelo contrário, eu sempre toquei com muita mulher, com a Comadre Fulozinha, mas essa coisa de “vocês são aqui” pra mim não tem o menor sentido. Pra mim o sentido é todo mundo tocando junto ali, não tem um jeito muito específico de mulher tocar. Tem a ala do xequerê, a ala da alfaia, mas não separar por isso.

Pérola Mathias – Eu queria saber em termos de vivência, de criação artística, de percepção estética, como foi pra você esse período do mangue beat, o fato de estar ali vendo acontecer e participando de um dos principais movimentos musicais brasileiros desde então e também passar por ele e depois conseguir se emancipar, criar o Comadre Fulozinha e depois sua carreira solo.

Karina Buhr – Foi uma época muito boa, no sentido de que era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Pernambuco tem muito isso, você vai no carnaval, a quantidade de coisa que tem, dá pra você passar uma vida em cada coisa dessa, sem conhecer direito ainda, porque são universos muito diferentes uns dos outros. Acaba entrando tudo no bolo “cultura popular” e se valoriza muito a imagem, a imagem do caboclo de lança, a imagem da rainha do maracatu, mas até hoje ainda é muito difícil o mergulho mesmo nisso, por parte da imprensa. É muito difícil você ver falar realmente sobre essas coisas, se fala uma coisa meio vaga, “ah, o maracatu” e ao mesmo tempo está lá a foto do caboclo de lança. Aí se for perguntar quem é o mestre do maracatu tal, ninguém sabe; quem é a rainha, quem é o rei, ninguém sabe. E eu sempre gostei, desde pequena, de tudo quanto é tipo de música. Eu ia pro show do Devotos do Ódio, eu tocava na Comadre Fulozinha, com Mestre Ambrósio, tinha a Soparia na época que um dia era choro, outro dia era samba, um dia era jazz, outro dia era qualquer coisa, era forró. Então, eu digo que foi minha universidade, a Soparia. Inclusive, eu larguei a universidade muito antes por conta de ir pra Soparia todo dia, além dos shows. E ao mesmo tempo era uma convivência muito forte com o machismo diariamente, a todo momento. Sempre tinha um lugar que você não podia tocar ou que você estava ali brigando, tocando, mas… O Estrela Brilhante foi um lugar que acolheu totalmente a gente, isso é muito mérito de Walter França, mestre do Estrela na época, no baque do estrela. No afoxé era complicado isso, no Cavalo-marinho também, até hoje é muito difícil. É muito difícil numa sambada de maracatu você ver mulher rimando, você ver mulher participando, é muito difícil. No Cavalo-marinho, as filhas de Salustiano, que na época eram pequenas, eu, Manuela Veloso, a gente vivia encarando o Salu, porque ele não queria que a galera de fora visse a gente participando e as filhas dele eram pequenas. Hoje em dia elas tem o Cavalo-marinho delas, elas fazem a festa inteira, tocam rabeca, tocam tudo, são maravilhosas. Elas conseguiram pegar esse espaço pra elas. Tem essa mudança muito forte dessa época pra cá… E na realidade das bandas era a mesma coisa, eu estava ali mas a maioria era homem e eu não ficava confortável ali – não por a maioria ser homem, são todos meus amigos, ótimos – não tinha uma placa dizendo que não pode, mas sempre era difícil, tanto que quando perguntavam pra eles sobre quem toca ou sei lá uma banda, eu nunca tava na lista, nem a Comadre Fulozinha. A gente só entrava quando alguém perguntava “e as mulheres?”, ou falava mesmo “e Karina?”. “Ah, Karina é ótima, maravilhosa…”, mas, sabe, era uma coisa que precisava ter uma direção pra galera falar, como se eu tivesse em algum lugar ali meio café com leite. Aí se perguntar vão dizer “não, é maravilhosa..”, entendeu? Mas no dia-a-dia tinha uma coisa que me impedia de botar as caras, e cansava de ficar brigando.

Paula Carvalho – E você acha que isso mudou hoje em dia?

Karina Buhr – Faz muito tempo que eu tô aqui, vai fazer dezoito anos que eu tô em São Paulo, eu sempre volto e convivo com eles, mas não tô nesse dia-a-dia que eu estava na época. Mas eu acho que mudou, principalmente o discurso, aí pra conviver com a galera no dia-a-dia que você vai entender se esse discurso realmente virou realidade. Tem muitas mulheres tocando em Recife, tem muita gente fazendo seus próprios trabalhos. Uma apóia a outra, mesmo se não está mais junta, mas você tem mais espelho, você tem mais gente fazendo. Na época, o fato de não ter quase ninguém – tinha algumas, tinha Stella Campos, Monica Feijó – mas ali também da minha idade, do meu convívio, da galera que começou ali comigo, quase não tinha. Na Comadre Fulozinha a gente começou a fazer um barulho, mas é isso, a gente era um bibelozinho da galera. Hoje eu acho que mudou bastante principalmente pelas mulheres que estão fazendo, é muito mais gente do que tinha na época, então faz um corpo muito maior, agora os meninos eu acho que pode ser mais o discurso (risos).

São Paulo, Teatro Oficina, cinema
Rafael Julião – Karina, eu queria aproveitar que a gente chegou a São Paulo na conversa e queria perguntar a você sobre a sua passagem no Teatro Oficina. O Zé Celso fez aniversário ontem, inclusive, então consta que entre 2000 e 2003 você teria passado pelo Teatro Oficina, participou de algumas montagens importantes, aí eu queria que você contasse um pouco essa história com o Oficina e o que ela levou pro seu trabalho dali em diante.

Karina Buhr – Foi na verdade de 2000 a 2007, mas, direto, eu fiquei de 2003 a 2007. Porque eu vim, fiz Bacantes, eu e Isaar, a gente estava num show na Soparia, na época no Festival de Teatro de Recife, em 1998, e aí Zé e o elenco foram assistir o show da gente. Quando acabou a peça e quando acabou o show, Zé veio e disse que a gente era as pastoras que tinham comido o véio do pastoril, e num sei o quê, e chamou a gente pras Bacantes – eu não sabia o que era Bacantes –  na virada do 2000 pro 2001 e eu e Isaar topamos. A gente veio, fez Bacantes, voltou para Recife, depois a gente veio de novo e fez “A terra”, primeira parte dos Sertões, em 2002, aí a gente foi de novo pra lá. E sempre tinha essa coisa de ficar, Zé chamava pra ficar e a gente voltando, voltando. Aí em 2003 eu falei “eu vou” e vim e fiquei até 2007 fazendo “Os Sertões”, que foram cinco peças, ao todo quase trinta horas de peça, porque a gente ficava em cartaz de quarta a domingo, era um negócio muito intenso. Tanto que esse tempo que eu passei aqui em São Paulo no Oficina eu não ia a lugar nenhum, não fazia mais nada, era dedicada pro teatro, do teatro pra casa, não tinha como ter outra coisa no meio disso. 

Rafael Julião – Suponho que deve ser um impacto muito grande pro trabalho de uma artista o Teatro Oficina, o que ele deixa depois em termos de concepção de cultura, de concepção de teatralidade, de musicalidade mesmo, porque o Zé Celso é um teatro musical de alguma forma, além de tudo o que ele é…

Karina Buhr – Sim, foi muito importante. E tanto eu, quanto Isaar, da primeira vez que a gente chegou, a gente veio sem ter ideia, a gente achava que ele tinha chamado a gente pra tocar, éramos totalmente ignorantes sobre o Teatro Oficina. Sabia de Zé Celso, a entrevista que ele deu pra Veja, aquelas coisas. Tinha um folclore sobre o Zé Celso, tinha visto fotos do teatro, bonito e tal, mas a gente chegou direto do aeroporto pra lá, e tinha uma banda já, tinha tudo. Aí a gente foi entendendo ali o que era, foi no meio de uma cena, “deixa a mala aí, vai”. Inclusive, essa cena se repetiu várias vezes, todas as vezes que eu vim, fui direto do aeroporto pra lá, e já tinha um negócio rolando, já tinha que jogar mala pro lado e entrar… E aí foi muito louco, porque eu fui aprendendo ali o que era Teatro Oficina, o que era Bacantes, tudo. E era exatamente o que eu procurava e não encontrava. Eu sempre quis fazer teatro, atuar, mas toda vez que eu chegava perto de alguma oficina de atuação, eu não curtia. Eu gostava de teatro de rua, principalmente, de Cavalo-marinho, de Boi… e aí tinha essa barreira para participar.  Quando eu cheguei no Oficina era atuar, cantar, tocar, fazer música, tudo ao mesmo tempo, e eu nunca tive bem isso separado. Essas coisas, pra mim, é tudo muito junto: desenhar, escrever, cantar, a gente fazia os roteiros juntos, com livro aberto, dicionário no começo, pra dar conta de “Os Sertões”. Foi muito intenso, tudo de ideia, tudo de aprender foi ali fazendo mesmo. Quando a gente chegou, teve uma galera: Denise Assunção, Pascoal da Conceição, Pereio, Leona Cavali. Então tem essa coisa do dia-a-dia e de você contracenar, fazer as coisas junto com uma galera ícone de teatro e foi muito importante nesse sentido também. 

Ananda Zambi – Você fez o seu primeiro filme, “Meu nome é Bagdá”, em que você atuou pela primeira vez. Eu queria saber como foi essa estreia no cinema.

Karina Buhr – Eu sempre quis fazer cinema, atuar, e nunca fui atrás. Pra mim era uma coisa meio mágica, assim, por mais que Pernambuco seja um pólo disso, eu nunca fui atrás e ninguém nunca me chamou, então eu nunca fiz. Calhou de eu começar a fazer com o Bolsonaro levando a Ancine e a gente ficando preso dentro de casa, me lasquei. Mas foi incrível fazer, foi uma das coisas que eu mais gostei na vida. Com certeza se a gente estivesse na vida normal, eu teria ido atrás de outras coisas e teria dado continuidade e também com o filme, né? A gente estreou na Berlinale, ano passado [2020], final de fevereiro, eu toquei no carnaval, fui pra lá e voltei. E o filme está entrando em vários festivais, no mundo todo, mas é isso, você fica divulgando link, adorando que tá no festival, mas não tá…  Mas foi incrível fazer e aprendi também fazendo, teve uma preparação pro filme, mas eu descobri o que era atuar com a câmera na frente ali, fazendo. E também essa coisa de atuar no Oficina é diferente de atuar em qualquer outro lugar, nenhum teatro nunca vai ser igual aquilo, é totalmente diferente o jeito de fazer, a forma de Zé dirigir. Então tem um teatro que eu não fiz ainda, eu fiz o Oficina, mas fazer um filme… eu quero fazer mais. No próximo eu vou ser a avó de alguém, porque nesse eu fui a mãe de Bagdá, quando acabar a pandemia, tomara que eu tenha bons papéis de vovó. 

carreira solo
Pérola Mathias – O que o trabalho no Oficina impactou no seu início de carreira solo, para vir depois “Eu menti pra você”, que você acaba se conectando com o pop, com o rock e com uma música independente contemporânea, mas também sem perder o sotaque? Queria que você falasse um pouquinho sobre essa transição e se o Oficina teve um papel determinante nessa passagem?

Karina Buhr – A ideia de fazer a história solo eu já tinha desde antes de ir pro Oficina, mas as músicas todas do disco eu fiz enquanto eu estava ali, aí arranjo e num sei o quê depois, mas a ideia eu já tinha de antes. A ideia, inclusive, da formação da banda, do tipo de som, mas aí eu não fiz porque no Oficina eu só fazia o Oficina mesmo, mas eu acho que o principal talvez tenha sido eu ocupar o palco de uma forma que eu queria já ocupar antes. Na Comadre Fulozinha, acaba que a gente ficou presa no formato. Não foi a gente que criou essa prisão, mas tinha uma expectativa e uma ideia do que a gente era. Eu gostei muito de tudo o que a gente fez, dos discos, do show, mas tinha uma fórmula ali que a gente acabou ficando presa e que eu consegui depois sair disso. E eu acho que fazer isso no palco com certeza teve a ver com as coisas que eu fiz no Oficina. Aproveitar o palco, a situação, o momento, o público, isso eu fiz muito lá e muito intensamente.

Pérola Mathias- Inclusive, em termos de produção, porque desde o seu primeiro disco você está presente ali na assinatura da produção do disco, mesmo que tenha o Bruno, o Maurício…

Karina Buhr – Isso é uma coisa que eu sempre fiz, na Comadre Fulozinha também, a diferença principal é assinar, que antes eu fazia também e não assinava, mas mesmo depois eu acabei não assinando a produção que eu fiz. O “Selvática” eu produzi junto e depois, por mil questões, eu acabei não colocando meu nome ali… a concepção do disco toda é minha, a gente fez os arranjos junto, mas tudo sob uma direção minha, de tudo, desde o nome do disco, a concepção toda. Isso ainda é marca de um monte de coisa que rolou e que rola ainda de você acabar deixando assim. Uma coisa que eu faço, os meninos da banda já sabem, eu coloco sempre o meu nome primeiro nas fichas técnicas, por mais que seja ordem alfabética, o k vem antes de todo mundo. Pode ser André que vem antes o k, porque é uma defesa já, na maneira de meu nome estar ali. Inclusive o “Desmanche”, que foi o mais recente, eu convidei Régis [Damasceno] para produzir junto comigo, falei a ideia que eu tinha, mostrei as músicas, ele aceitou e a gente foi fazer. A primeira matéria que saiu sobre o disco foi “produção de Régis Damasceno” – é uma coisa impressionante! Nessa mesma matéria, que foi sobre o single, o “Sangue Frio”, que saiu antes do disco, fala que foi produzido por Régis, elogia muito a percussão da faixa e a coisa de não ter mais bateria, só percussão, cita os músicos e não me cita, nem eu, nem Sthe Araújo, que eu chamei pra tocar percussão também – ela toca tarol nessa música. Botaram todos os nomes e não colocaram nem ela, nem eu, mesmo o disco sendo meu, eu produzindo, a música sendo minha, meu nome não está entre os músicos que tocaram na faixa, mesmo a percussão sendo elogiada, sabe? É um negócio… isso é uma coisa que se reflete em várias outras coisas. Você acaba deixando de fazer muitas coisas por conta disso, você está sempre com atenção ali, ou tendo que provar, eu, eu, eu, é um negócio meio esquisito. O ideal era você fazer e ficar tranquila, mas é uma coisa forte ainda.

Pérola Mathias – Sobre essa coisa da crítica, em quase todas que saíram sobre os seus discos tem uma referência a uma ideia de que é a mulher na música – ou porque você acabou puxando referências do punk ou por causa da performance no palco, por causa da maquiagem pesada etc. -, tem sempre uma alusão à mocinha versus a vilã e eu queria que você comentasse um pouco sobre esse estereótipo. Como pode ser ruim para uma carreira olharem para a produção artística e terem, porque você é mulher, que colocar nesse dualismo, em ser boa ou ser má, entre ser vilã e ser mocinha, entre ser sensual ou recatada, enfim…

Karina Buhr – Na música brasileira tem isso – “as vozes femininas” – eu odeio esse termo, só vejo um monte de fantasma vindo. Mulher brasileira tem que ser cantora e pra ser cantora também tem uma competição, quem é a próxima Elis Regina, depois virou quem é a próxima Marisa Monte, então é sempre como se tivesse que ter uma e as outras, enquanto que pros caras todos, pode ser ótimo, maravilhoso, vai ter espaço pra eles. Eu não tô dizendo que tem espaço pra todos, mas a grosso modo, você olhando, tem essa coisa de eleger uma. Hoje em dia eu joguei tudo fora, mas durante um tempo eu guardava matérias que saía de lançamentos de discos de mulheres, e sempre foi normal isso, para falar do disco de uma, fala do disco de outra, que não tem nada a ver. Eu já fui muito citada nos lançamento de disco e outras são citadas nos lançamentos dos meus. “Fulana não fez isso”, entendeu? Aí faz uma matéria só com três discos, com mulheres que não têm nada a ver uma com a outra, mas a galera quer ligar de algum jeito, aí inventa um mote que não existe, isso acontece muito. E tem uma coisa de forçar “as cantoras da sua geração, a Tulipa, a Letrux, eu. Ó, não é a mesma geração, não, minha gente, mas é porque tem que encaixar de algum jeito. Não é a mesma geração. Não sou nova geração. Sou velha. Lá nos anos 1990 a gente já tirava onda disso, porque era “nova cena, nova cena”, meu deus, “nova cena”, isso em 1990 e pouco a gente reclamava, porque já fazia dez anos que a gente era nova cena. Aí eu vim pra São Paulo, zerou, eu comecei a ser nova cena de novo. Porque tu chega em São Paulo, tu chegou no planeta, né? Nada do que você fez antes… São Paulo é a origem do mundo. Então teve isso também: eu comecei a ser nova cena de novo em 2010, e hoje eu sou nova cena É a fonte da juventude.

Ananda Zambi – Com essa questão de colocar cantoras mulheres todas no mesmo saco, eu te entrevistei em 2016 e você falou que em alguns festivais e colocavam “noite de rock” e “noite das mulheres”, faziam umas divisões bem sem noção, lembrei disso.

Karina Buhr – Sim, tem tudo a ver. Por exemplo, quando saiu o meu disco em 2010 rolou muito isso, que eu quebrava o estereótipo do não sei o quê, sendo que as mulheres que estavam cantando antes, botaram elas dentro desses estereótipos. Claro que sempre tem gente que quer entrar no padrão pra fazer mais sucesso, isso vai ter sempre, mulher, homem, todo mundo, mas eu me sentia muito mal com isso. E nem é pelo tipo de música que você faz também, você pode estar fazendo o maior rockão e tá lá apanhando do marido, você pode fazer bossa nova e tá lá comandando, então…

produção na música independente
Rafael Julião – A gente fica aqui pensando muito sobre o que é a canção contemporânea, isso quando as pessoas não usam Nova MPB, reciclando um termo que já estava enrolado antes, mas talvez isso tenha a ver com uma mudança de mercado fonográfico; eu fiquei pensando muito na provocação que você faz, logo no “Eu menti pra você”, você tem uma canção que brinca com as leis de incentivo à cultura, você canta “é preciso entrar no gráfico do mercado fonográfico, mas eu não sei negociar, eu só sei no máximo tocar meu tamborzinho e olhe lá”. E logo no mesmo ano você ganha um edital da Natura que permite a você que grave e que também divulgue o “Longe de onde”. 2010 e 2011 me parecem muito ricos da exposição do seu trabalho atravessados por essas novas formas de fomento da cultura. Eu queria saber como você lida com esse processo de produção da canção independente daquele momento até agora – acaba que o artista contemporâneo vira um produtor efetivamente, que lida com edital, que lida com o Spotify, com o circuito de shows, enfim – como é que essa artista contemporânea se desdobra em produtora?

Karina Buhr – Você atira pra todo lado. Tenta várias formas, porque não tem uma. Um dia desses eu dei uma entrevista e perguntaram “quando foi que aconteceu isso que você percebeu que estabeleceu…”. Estabeleceu aonde, minha gente? No meu endereço, aqui, nessa rua, porque… nunca tem, nunca tem não, há de ter um dia, mas hoje é parecido com o que tinha no começo, a diferença é que em São Paulo tem mais grana circulando, você consegue manter mais as coisas, tem Sesc – eu ia dizer Sesc e… aí fica no Sesc, Sesc, Sesc – você consegue fazer mais coisa, você consegue manter uma equipe. Sobre a produção das músicas, tem uma coisa que eu prezo muito: ter liberdade, pelo menos enquanto você tá escrevendo, fazendo sua música. Porque a coisa do discurso, da necessidade do discurso está nas letras, às vezes eu tenho essa necessidade, às vezes não, eu escrevo textos tranquilos, e eu prezo muito por isso e eu sinto que cada vez mais essas coisas vão se perdendo por conta desse modelo de “entrar no gráfico do mercado fonográfico”. As pautas todas são sequestradas pelo mainstream, pela maneira como as coisas vão acontecer. Aí você volta, tá parecendo que tudo melhorou, que os discursos todos estão liberados, muito bom, quando você vai ver, na prática é outra coisa. Você, dentro disso também, tem que se enquadrar, é uma coisa que você tem que ir se equilibrando, todo dia, vendo aonde você pode, onde você consegue ceder, de acordo com o que você conseguiu conquistar ou não, ou na época que você tá. O ideal pra mim, pra qualquer um que faça música independente no Brasil, mesmo sendo independente, é ter uma marca junto, pelo menos em algum momento. Eu tive a Natura pra fazer o “Longe de Onde”, depois não tive mais. Tem um ímã ao contrário de marca, é impressionante, zero marcas, e eu acho que tem muito a ver com meu bocão também, entendeu? Porque você tem que ver qual o tipo de acordo que você vai ter pra manter… Cada vez mais isso é invasivo, né? É cada vez mais invasivo isso das marcas, cada vez mais os envolvimentos são o de você fazer de conta que não é uma propaganda. Eu já recebi vários convites que eu já recusei, de marca. Uma vez foi um whisky, eles foram atrás de gente que tava começando, de gente mais ou menos, de gente famosona, gente de todo jeito. A história era pra falar como era bom tomar whisky, porque descobriram que eu gostava de whisky, aí eu ia ter que ir duas vezes nas minhas redes sociais, sem falar a marca, postar uma foto do negócio tomando whisky e dizendo como é bom tomar whisky. Eu falei “Não, né, minha gente. Eu vou ficar de pingunça, mandando o povo beber, é? Não vou”. Prefiro até fazer a propagando, o comercial, admitindo que é um comercial, fazendo um jingle, aí eu até acho mais interessante, porque é um trabalho que você tá fazendo, tá recebendo e todo mundo tá vendo, do que você tentar enganar, “Ó que delícia, tô tomando wisky…”. Minha gente, eu não tomo whisky terça e quinta. Acaba que nesse dia-a-dia quando você produz as suas coisas e tem também esse envolvimento com marca, muitas vezes, acaba a pessoa direcionando muito o que faz. No caso do “Longe de Onde” foi totalmente tranquilo fazer, eu fiz, foi massa, mas aí eu percebi que durante a divulgação do disco tiveram várias coisas que eu não fiz. E aí com certeza isso impede outras coisas de acontecer, você vai negando, vai negando, enquanto muita gente diz sim, sim…

Paula Carvalho – Eu queria saber como você está vendo esse cenário de pandemia, o mercado de shows morgou ou tem uma live ou outra, um Aldir Blanc que tá saindo aí por um milagre, mas a tendência é que tudo se concentre muito mais nesse mercado de streaming, que muito poucas pessoas são muito ouvidas e o resto vira uma grande dispersão do 99%. Eu estava pesquisando sobre isso, a cada dia entram dez mil novas músicas mais ou menos nos serviços de streaming, isso tende a zero do que você vai receber de um negócio desse. Ao mesmo tempo, a música independente é uma das mais ouvidas nos serviços de streaming, sai no relatório como se fosse major, mas é porque é distribuído pela CDB, por essas distribuidoras que são da Universal e tal, mas é artista independente que está sendo ouvido. Eu queria te ouvir sobre esses caminhos da música agora nesse cenário de pandemia.

Karina Buhr – É bem cruel, bem cruel mesmo,  porque pra mim, pro meu jeito de trabalhar, e pra um monte de gente que eu conheço, o principal é o show. Tanto a energia que você bota de trabalho quanto a grana que você ganha. E o resto, tá um monte de gente, eu aí incluída, aprendendo na marra coisa que a gente nem entendia, essa coisa do streaming é uma coisa cruel e feita pra não ser entendida mesmo. E tem muita coisa mal explicada. Já fui em fala, palestra sobre isso, e eu tô vendo que a pessoa tá falando uma coisa que não é, que é de outro jeito, é tudo feito pra gente não ter acesso, é feito pra galera do topo ganhar muita grana e o resto é o resto, você fica ali na migalhinha. É cruel, né? Dos 12% intérprete fica com três, é um negócio surreal. Aí a gente tem que começar a entender mais disso pra poder, mas aí é isso, isso é uma outra profissão que a gente tem que ter. O ideal é você ter uma pessoa pra cuidar disso, mas como é que você vai ter uma pessoa pra cuidar disso se você não tá ganhando dinheiro nenhum? O foco sai do show e entra num lugar que a gente não tem acesso, que a gente não entende, aí começa a entender, aí tropeça, não sabe se edita, aí resolve editar, quando vê tá se lascando muito mais, porque a editora tá ficando com uma parte da grana, e você não viu diferença nenhuma de alcance. Você só divide o dinheiro, mas não ganha nada em troca. Isso é o que mais rola: a pessoa editar porque acha que a partir daí vai… e não acontece nada. O principal pra mim é isso, você ter que dominar um assunto que você não domina, uma coisa que você não escolheu trabalhar… mas isso aí você tem que esquecer, na verdade, você vai lá aprende. Tipo agora, eu organizei um monte de coisa, teoricamente você não recolhe autoral, músico não recebe em streaming; não é feito o que você recebe pelo isrc da música, músico não recebe, e autor, até onde eu sei, também não recebia, a não ser que fosse sócio do sei lá o quê que esqueci o nome da coligação dos selos, das editoras. Aí eu conheci essa pessoa que me disse que está fazendo esse trabalho pra vários artistas: “eu tô recolhendo autoral”, “mas como é?”, aí ele foi lá, fez e eu tô aprendendo como faz pra recolher o autoral. Mas a maioria eu acho que não pode recolher e se vai procurar saber oficialmente, recebe a notícia de que não recolhe, mas recolhe, então é um negócio que fica escondido. A grana, que é pouca, você ainda deixa de receber o muito dentro desse pouco. Você vai gravar uma faixa com alguém e isso não lhe mantém. Inclusive, a maioria das coisas que eu gravo de participação, eu não recebo. A não ser que a pessoa esteja contratando os músicos para gravar as faixas todas. Então fica uma coisa meio como se não existisse. O meu trabalho é como se não existisse agora. Eu escrevo uma vez por mês pra Revista Continente. Meu trabalho oficial é esse agora, porque… é um negócio muito esquisito.

Paula Carvalho – E tem essa tendência de dispersão, imagina que essa situação está assim para músicos do mundo todo, esse mercado hoje em dia tá todo mundo tão preocupado em se manter na sua vida que não tem uma mobilização coletiva.

Karina Buhr – E também é difícil ter mobilização coletiva. Toda hora você vê um “ah, mas músico não se une…”. Não tem muito como se unir, porque são universos muito diferentes, quem tem poder pra falar é uma galera lá do alto. Tem uma galera milionária de streaming que vai e tenta as coisas, é outro mundo. Os cachês são diferentes, a quantidade de músicos que tocam, é muito diferente, é muito dividido, é difícil reunir assim “vamos lutar pelos nossos direitos”, porque são lutas muito diferentes, o acesso que cada um tem pra isso. Tem gente que realmente não consegue cuidar disso, são qualidades diferentes, seu trabalho é esse, você toca, canta, mas você tem que entender disso aqui se não vão lhe passar a perna, aí fica todo mundo solto. E a coisa das lives pra mim é uma mentira, funciona pra quem é bombado. Você é bombado, você faz uma live incrível, com som foda, com uma luz fodona. Eu tive a chance de fazer uma que era um show que já estava marcado antes da pandemia, que foi adiando, adiando e que virou live. Foi uma que eu fiz na galeria Olido, que foi voz e tambor, eu e Régis. Eu adoraria ter feito o show de “Desmanche”, mas era um show que já estava marcado. Aldir Blanc: pouquíssima grana pra se produzir seis lives,aí você faz seis negócios mais ou menos ali e não faz nenhum massa. E live também você não vê ninguém, você tá ali cantando olhando pra sua cara, esquisitíssimo. É massa porque depois você vê a reação das pessoas, “pô que massa, rolou, chegou nas pessoas também…”, mas ali na hora fazendo é muito esquisito. 

Pérola Mathias – Quem assiste tanta live?

Karina Buhr – Meu deus, é uma agonia. Inclusive a última, do Aldir Blanc, é amanhã, na mesma hora da entrevista de Lula, me lasquei. (risos)

Ananda Zambi – Você é uma multiartista, desenha também, começou a vender suas ilustrações, o que você acha que vai acontecer depois da pandemia? Como vai se dar essa relação com a cultura?

Karina Buhr – Eu acho que pra quem começar depois, ótimo, zera tudo. Mas, pra quem já está fazendo, eu acho que muita gente vai deixar de fazer, a mim mesmo passa pela cabeça, toda hora. Vou ficar fazendo o quê, ficar com um trabalho que não existe, e é muito do quanto cada um consegue se manter, porque agora é se manter, não tem plano. Parou o disco no meio, parou o filme no meio, parou tudo no meio, então zerou e você fica ali catando trabalho pra se manter, pra pagar o aluguel, pra pagar as contas, você não consegue planejar. E sem planejamento – é um trabalho que depende totalmente disso – depende de você planejar ou pelo menos querer para o ano fazer não sei o quê lá e você não pode fazer. Então fica totalmente sem perspectiva, enquanto o mercado fonográfico continua do mesmo jeito, querendo coisa nova. “Qual o seu próximo trabalho?”. “Nenhum, minha gente”. Meu trabalho novo é o disco velho, ficou velho, porque é de 2019, então não sei o que vai rolar. Acho que muita gente vai desistir, porque vai ter que fazer outras coisas, não vai ficar só com isso. Meu pai que dizia: “você faz um monte de coisa, mas não escolheu uma coisa que dê dinheiro..” (risos). Mas, é isso: escreve ou desenha ou faz música. Eu tenho um monte de opção, tudo opção que é difícil. Escrever livro, você ganha 10% do preço de capa… no meu caso, eu tô juntando tudo e atirando pra ver o que acontece. Mas, ao mesmo tempo, isso, nessa tristeza, nessa vontade zero de fazer. Um terror tão grande que você perde a energia mesmo de fazer as coisas. Vamos ver. Sei não o que vai acontecer.

compor canções, escrever poemas
Rafael Julião – Karina, no seu livro tem um momento que você diz assim “ é estranhíssimo ler suas próprias coisas e ainda mais tempos depois, só é menos estranho do que ouvir a própria voz em músicas”. A gente tá falando muito dos bastidores e eu queria que você falasse um pouco sobre os seus discos. Talvez a gente esteja num momento de balanço, ainda vale isso que você escreveu em 2015, ainda é estranho pra você reler as suas coisas, ouvir os seus discos, qual é a sensação que você tem olhando pro seu trabalho até aqui?

Karina Buhr – Eu nem me lembrava disso. Assim, depois que passa um tempo é massa, você ouvir, você curtir, acha massa, e lembrar de como fez, é muito legal. Logo que você faz, esgotou tudo ali, jogou ali e você só reza pro povo gostar,  mas aí quando passa um tempo é massa. No “Desperdiçando rima” mesmo, comprei hoje, comecei a vender de novo, aí comecei a reler algumas coisas, relembrar coisa que eu tinha escrito e que eu não lembrava e é massa. Ao mesmo tempo tem coisa que você faz e diz “vixi, jamais teria escrito isso hoje”, porque também tem isso, nunca fica pronto direito. Disco também, se deixar você fica pra sempre ali. Tem uma hora que você tem que dizer “parou, acabou e tá pronto”. Mas quando passa um tempo é muito massa você ver um pouco de fora isso, você ver “eita escrevi um livro, gravei um disco”, é muito legal. E disco já são quatro. “Uhuu”, você fica, “ah, sou ótima!” (risos). Olha a declaração que a pessoa dá… (risos). Tô sendo irônica. A curtição é o show, pra mim o que eu mais gosto é o show. O estúdio pra mim é pra gravar aquilo ali, guardar, mas eu não adoro estúdio, pra mim é o show. Só que nessa época isso, né? E aí você tem que criar notícia, porque não tem nada novo, então eu tô postando vídeo velho, postando disco velho, eu tô revisitando as coisas e é muito legal você ver que conseguiu fazer aquilo, que juntou uma galera, que tem uma galera dessa que tá com você até hoje, que fez várias coisas, e vê todo mundo na mesma, indo atrás de fazer. É muito legal. E também quando você faz você não tem muito certeza. depois de um tempo parece que firma, que assenta, que existe mais de verdade.

Pérola Mathias – O livro, “Desperdiçando rima”, ele não versa somente sobre um único tema. Eu queria saber sobre a sua criação literária e a dinâmica de composição, se há alguma diferença entre escrever um poema e uma letra de canção. Se os versos, as estrofes vêm de maneira diferente, se são exercícios de criação distintos ou se você concebe já sabendo que vai pra um lado ou para o outro e saber também se você relaciona essas suas criações com alguma dessas tradições pelas quais você passou, explorou, do repente, da relação da palavra e ritmo, como isso se dá no maracatu e tudo mais.

Karina Buhr – Eu acho que é muito diferente, mas ao mesmo tempo, quando eu lancei o “Desperdiçando rima” tinha muito essa pergunta: qual é a diferença entre escrever música e escrever poema? “Ah totalmente diferente”, quando eu fui ver, eu peguei o “Desperdiçando rima” e transformei quase tudo em música, mesmo mudando. Eu pego um pedaço daqui, junto com outro, mas o que é diferente é mais a maneira de você se organizar pra fazer. Eu não acho que tá no lugar da criação, não. Eu acho que é mais ali da labuta mesmo, de pegar a ferramenta pra serrar a madeira, é muito mais isso, do que em que lugar tá. Mas, sobre os lugares por onde eu passei, tá aí em tudo o que eu faço, tanto nos temas, na maneira de falar, na maneira de tocar, aí eu misturo tudo e tá tudo bagunçado, não é setorizado. Quando eu pego um tambor pra tocar, eu misturo maracatu com coco, eu acho que tem muito disso, mesmo que não seja consciente. Eu faço música com voz e tambor, eu não toco instrumento de harmonia, então é tudo no ritmo, na palavra e no ritmo. Inclusive isso no show “Voz e tambor” tem até Max, Max BO, porque é outro canto, ele é MC, é outra parada, mas é voz e ritmo. Quando ele foi participar desse show teve muito isso, são coisas totalmente diferentes, mas é palavra e pulsação, então tá tudo em casa.

Pérola Mathias – Eu acho que o “Desmanche” é o seu disco que amalgama diversas referências musicais, que volta a ter a percussão um pouco mais evidente, que nessa música mesmo [“Filme de terror”] tem alguma coisa meio latina, uma coisa falada, e tem todo o peso das guitarras. Ao mesmo tempo, que tinha nos outros, a coisa do punk. Queria que você falasse um pouco sobre essas suas referências musicais, mesmo que você não toque instrumento de harmonia, como você pensa isso e se eu tô errada nessa ideia sobre o “Desmanche”.

Karina Buhr – É porque é muito diferente o ponto de vista, o ponto de vista que eu tô, de eu fazendo e o que aparece como resultado disso. As músicas eu sempre fiz desde o começo isso, tocando tambor e cantando. A melodia eu faço com a voz, gravo, já tem mais ou menos uma divisão e eu gravei com o tambor pra mostrar pra banda. Sempre foi assim em todos os discos, só que do “Eu menti pra você” para o “Selvática” era a mesma banda, baixo, duas guitarras, bateria, então naturalmente ali a percussão ia sumindo, não que tivesse que sumir, mas enquanto a gente ia fazendo os arranjos a bateria já pegava aquela divisão, aquela pulsação, já criava uma coisa em cima e a percussão saía. E eu gostava desse resultado, sempre gostei, e cada vez foi ficando mais pesado, muito por conta dos shows também, ia pesando mais nos shows e no próximo disco isso aparecia. Aí no “Selvátiva” eu já queria colocar percussão, mas eu fui engolida pelo processo da gente mesmo de fazer arranjo. Quando eu vi já não tinha de novo, já virou outra coisa, já não tem mais como colocar. No “Desmanche” eu falei: eu vou me obrigar. O único jeito vai ser tirar a bateria, vou mudar tudo. A gente já fez três discos massa com a banda, tudo certo, quero voltar a tocar, inclusive também porque eu não toco em São Paulo. Eu não sou uma pessoa que toco em casa, eu não fico estudando. E com o isolamento social, lascou, eu não toco. Eu falei vou botar no show pra voltar a tocar, eu tava com muita saudade de tocar e tocar no show. Foi quando eu tirei a bateria e chamei Maurício Badé, que eu conhecia há mil anos e aí a gente tem um universo muito parecido de tocar e a gente se entende muito fácil também. Eu fiz questão de ter alguma coisa eletrônica também, porque eu sinto falta de um som mais duro. Eu gosto do tambor ali mole, mas eu gosto do som mais quadradinho sem muito respiro. Tem ali Charles Tixier fazendo umas bases e voltou a ter essa histórias. Mas pra mim sempre teve. Pra quem escuta, talvez nunca tivesse tido tambor no “Eu menti pra você”, no “Longe de onde” e no “Selvática”, porque eles não aparecem nas gravações, mas eles estão li nas divisões da fala, da voz. 

Rafael Julião – Karina, eu fui reouvir o teu trabalho esta semana e, pra minha surpresa, quando eu fui ao YouTube ouvir o “Selvática”, eu fui informado que esse vídeo pode ser impróprio pra alguns usuários. Apareceu uma tarja, provavelmente por causa da capa. Ironicamente, é nesse disco que tem a canção “Eu sou um monstro”. Eu fiquei pensando não só no trocadilho que monstro tem a ver com mostrar, monstro é aquilo que a gente não espera que vá acontecer e aparece, desde os filmes de terror é isso, você não queria que aparecesse e aparece. Tem até uma autor, a Julia Kristeva, que o monstro é aquele corpo que não é aceito, que desequilibra o sistema de regras. E eu fiquei com a impressão que essa questão da monstruosidade atravessa todo o seu trabalho, como se esse “Eu sou um monstro”, tem vários monstros no seu trabalho, coisas que vem à tona, que tem vínculos com sonoridades, com ideias, com comportamentos, com entendimentos do que é ser mulher. Eu queria que você não só comentasse essa censura ao selvática no YouTube, mas que me dissesse o que você acha que o seu trabalho traz de monstruoso ou daquilo que se tentou esconder e que em termos de sonoridade, de ideia, de postura, ele traz à frente.

Karina Buhr – Eu acho que o monstro sempre esteve ali mesmo em toda minha relação com todos esses trabalhos. É um lugar incômodo. O lugar onde eu fico cômoda é no incômodo. Não é por uma escolha, é assim porque, desde tudo, de tocar percussão, de estar lá na Comadre Fulozinha e, de repente, fazer um disco como “Eu menti pra você”, muita gente que gostava antes passa a não gostar, muita gente que não gostava passa a gostar. Ou dentro do mesmo disco tem músicas muito tranquilas e porrada, isso tem em todas, tem gente que escuta só a música tranquila. Já ouvi gente dizer “ah, essa cantora é mais uma Mallu Magalhães” – em algum comentário do YouTube tinha isso – e eu quá quá quá, porque logo no outro tinha alguém reclamando porque eu gritava demais. Eu gosto disso, porque é o que temos, mas tem muito esse incômodo, tanto em mim como em que está assistindo. Eu já ouvi muito “eu te odiei a primeira vez que eu te ouvi, aí depois eu ouvi tal música”, “eu não gostava, gostei”, “eu gostava, eu não gosto”. Quando eu levo essas influências todas juntas, vai ter coisa muito diferente uma da outra. Nesse sentido tem esse monstro aí, sempre. Chega no Teatro Oficina sem ser atriz, aí vai fazer na marra, aí chega no livro sem ser escritora, sabe? E sobre a capa de “Selvática”, especificamente, foi uma coisa que realmente complicou. O disco é muito boicotado pelos algoritmos, realmente me quebrou essa capa. Eu até pensei uma época se eu botava outra capa nas redes, porque ele realmente andou bem menos do que poderia andar. A sorte é que eu fiz uma quantidade legal de shows e aí o público recebeu e entendeu tudo. E na época teve uma coisa também que Mau[rício Badé], que tocava baixo comigo, quando eu falei pra ele da capa, ele me disse “mas será que não vão falar só disso?”. Eu fiquei puta com ele na época. E aconteceu exatamente o que ele falou. Para o público aconteceu totalmente o disco, mas se pegar o clipping de todos os discos, sobre o “Selvática” só falam da capa. Velho, a galera não falou das músicas, das letras, é a capa. E logo que saiu, porque vazou, foi o Mauro Ferreira, a gente entregou pra ele, estávamos programando a divulgação, aí eu sempre tenho assessoria de imprensa pro lançamento dos discos, e ela falou “ó, o single a gente manda pra Mauro”. A gente fez uma capa pro single, que não era a capa do disco, mandou o disco com a capa pra ele e combinou. Aí ele disse “dia tal eu faço a crítica e posto a capa do single”. Ele postou a capa do disco. A gente até tentou “Mauro, por favor retira”. Ele disse “não, já botei”. Então isso também quebrou, porque chegou a capa no momento que não era pra chegar, aí se esgotou, falou da capa, quando saiu o disco ninguém falou mais nada. Essa capa foi monstruosa mesmo. Gerou uma coisa muito boa quando lançou, mas não tinha música, então eu perdi esses views.

redes sociais e pandemia
Paula Carvalho – Você fala que não tem muito distinção da Karina cantora, produtora, atriz, escritora, mas o que eu queria saber é se tem uma distinção da Karina pessoa pública e pessoa privada, se você se preocupa com isso.

Karina Buhr – O lugar em que eu fico mais confortável é no palco mesmo, ou atuando, ou tocando, ou cantando. Aqui, a gente falando, entrevista, é tranquilo também, mas não é uma coisa que eu gosto de ficar… Se eu chego num lugar cheio de gente, eu fico quieta na minha. Eu sou tímida, embora não pareça. Eu não curto muito essa coisa da exposição. Inclusive, é uma coisa que atrapalha, eu tinha que ir contra isso pra divulgar as coisas, principalmente agora que não tem show. Tem que ficar botando minha cara, um negócio que eu não gosto muito, entra na categoria “ossos do ofício” ficar com a cara ali. Eu, por mim, andava sempre assim. Na verdade, hoje eu sou perua, porque eu já fui, mas eu não curto muito. No show eu curto colocar um figurino, uma maquiagem, pirar pro show, mas se eu vou num evento, num festival eu não curto botar o look do evento, fazer num sei o quê, é um esforço. A gente ainda é muito escrava dessa coisa da imagem da gente – mulheres, eu tô dizendo, mais do que homens – nessa coisa de divulgação, de mídia. Os caras vão lá, colocam uma roupa e foi. Não precisa nunca botar maquiagem, nunca nada, só se quiser fazer lá a ideia dele, mas se não for tá de boa. E a gente tem uma pressão muito grande por isso ainda. É uma pressão porque você não pode dar o foda-se. Não pode. Porque se der o foda-se você não vai aparecer em lugar nenhum. É um saco. Às vezes eu chego e parece concurso de miss, tá cada uma mais linda, mais look, “ai eu quero ir pra casa dormir” (risos).

Pérola Mathias – Mas isso que você falou da marca do whisky, que é a dissolução do privado e do público, que eles querem cada vez mais vender que sua vida privada é pública – e não é. Então tem que passar essa falsa imagem por verdadeira e criar uma persona em que, praticamente, a sua persona dentro de casa tem que ser aquela do mundo virtual, porque o que vai dar dinheiro não é o streaming, é a propaganda que você vai fazer no Instagram.

Karina Buhr – Pra mim é não só um desafio, é um desafio no sentido de eu não fazer essa parte, eu não fico falando de coisa pessoal, mostrando coisa pessoal. Vacinação da minha mãe, eu ia postar pra dizer viva o SUS, mas tem gente que não vacinou a mãe, aí não botei. Eu prefiro desenhar mais e postar mais desenho do que fazer essa parte. Mas ao mesmo tempo eu tenho consciência disso, então às vezes eu vou jogar com isso, tipo me arrumar pra ir pro prêmio lá sem querer me arrumar. “Tá massa, vamos botar uma roupa legal”, “vamos ligar pra alguém pra pedir uma roupa legal” (risos). 

Pérola Mathias – É uma demanda surreal você ter que parecer sempre bem e mostrando sua vida pra poder criar um caminho que conecte com o que você está vendendo. É uma servilidade da imagem no mundo das redes.

Karina Buhr – E tudo isso se intensificou agora, porque não tem o show, então você tem que ter alguma coisa. Você fica se requebrando, eu tô nesse momento, daqui a pouco vão acabar os vídeos velhos, o que é que eu vou fazer? (risos) A última coisa foi: vou postar as coisas do “Desperdiçando rima”, você fica catando coisa dentro do que você já tem. No começo é massa, você fica “eita tem tanta coisa, nem sabia que tinha tanta coisa”, aí depois você fica “meu deus, eu quero fazer alguma coisa”, você fica vivendo de passado. 

Pérola Mathias – Karina, você comentou nas suas redes que esse período da pandemia foi muito difícil para criar – como tá sendo essa sua relação com o isolamento, a derrocada do Brasil e o momento criativo?

Karina Buhr – O momento não criativo, né? No começo eu não consegui realmente fazer nada. Eu passei alguns meses só tristeza e agonia, sem conseguir fazer nada. Aí depois, talvez da necessidade de ter que fazer alguma coisa mesmo, veio alguma espécie de ânimo, quando eu comecei a desenhar, a vender os desenhos. Eu tô escrevendo bastante, mas é um negócio muito esquisito, porque você fica querendo o mínimo de tranquilidade, e não tem. A gente tá esse tempo aqui, quando a gente volta pro Twitter aconteceu não sei o quê, né? Negócio que não tem pausa. Eu não vejo minha mãe desde o carnaval do ano passado, minha mãe, meus irmãos, aí você vai acumulando isso. Você tem que ter um ânimo pra fazer alguma coisa, eu tô indo dia por dia, alcoólicos anônimos. E eu tô meio doida das ideias, um monte de sintoma de quem já teve covid, mas é sintoma que falam que é de isolamento, e de esquecer das coisas. Não tá girando, você fica ali só rezando pra acabar o inferno, mas do jeito que tá, não sei se acaba. 

Rafael Julião – pra piorar tudo, hoje é 31 de março, aniversário do golpe de 1964, e que provavelmente quando a gente voltar pro Twitter, algum dos membros do atual governo já terá dado alguma declaração abjeta. Eu queria saber se ao mesmo tempo você ainda acha que a canção popular de modo geral – e seu trabalho de modo específico – ainda tem alguma coisa a contribuir num momento como esse tanto pra de alguma forma amenizar esse horror que a gente tá passando, tanto pra propor saídas, ideias. Eu não sei se é uma pergunta ingênua, mas você acredita que a canção ainda tem um lugar nesse momento pra abrir caminho?

Karina Buhr –  Eu não sei, acho que em algum lugar tem, qualquer tipo de arte em algum lugar tem, é quando a gente consegue respirar, você escuta uma música, pra rir ou pra chorar, você sai um pouco, acho muito importante. Dizendo isso sobre a música pronta, mas não sobre quem faz a música, foda-se. Porque por exemplo o meu público já concorda com meu ponto de vista, porque eu falo muito sobre isso, isso tá presente no meu trabalho; uma pessoa que gosta do meu disco, do meu show, não vai bater palma pra Mourão dando os parabéns pra ditadura. Eu não alcanço esse outro público, eu acho. Então não sei se nesse sentido faz diferença. Acho que faz a música pronta, as pessoas ouvirem. Inclusive, eu escuto muito isso depois das lives, “ah obrigada, que bom que vocês fizeram isso”, e eu penso “eita que massa, velho”. Porque mesmo a gente ali sem curtir tanto, porque tá numa nóia, sem máscara, num estúdio fechado, quatro pessoas, tenso pra caralho, mas ali tem alguma coisa ainda que emociona alguém, então nesse sentido, sim. Então, é sim e não, né? (risos)

Pérola Mathias – Karina, super obrigada pelo seu tempo e disposição para participar dessa entrevista. Paula, Ananda, Rafael, obrigado.

Karina Buhr – Obrigada, minha gente, obrigada mesmo.

Ananda Zambi é mestranda em Comunicação Social, colaboradora nos sites Scream & Yell e Hits perdidos, apresentadora do Ananda Entrevista, assessora de imprensa e cantautora.

Paula Carvalho é jornalista e socióloga, formada na Cásper Líbero e na Universidade de São Paulo. Tem mestrado em Sociologia na USP e atualmente é doutoranda na mesma instituição. Tem uma pesquisa sobre a fase inicial do rap em São Paulo e atualmente estuda músicos instrumentais que migraram para os Estados Unidos no pós-bossa nova. Tem 10 anos de experiência como jornalista e atuou na Revista Bravo, jornal O Estado de S. Paulo, além de textos para outros veículos como freelancer.

Pérola Mathias é editora da revista Polivox, pesquisadora de música contemporânea e autora do projeto Poro Aberto, que dá nome ao blog de crítica musical, ao programa apresentado semanalmente na rádio on-line antenAZero e à curadoria e produção de shows mensais em São Paulo – e esporadicamente no Rio de Janeiro. Também escreve para o perfil de crítica de canção no instagram Resenhas miúdas.

Rafael Julião é professor, poeta e pesquisador de canção popular brasileira. Em 2014, publicou o livro de poemas Terra. Nos anos seguintes, os livros Infinitivamente pessoal – Caetano Veloso e sua verdade tropical (2017) e Cazuza – segredos de liquidificador (2019).