Nem vem, de Haicu

Este texto foi escrito por Bruno Cosentino e publicado originalmente na primeira edição da Revista Polivox, em 2014. “Nem vem” é uma canção de Pedrinhu Junqueira e Antonio Escobar, gravada em 2016 no disco Haicu, pelo duo de mesmo nome, formado por Pedrinhu e Júlia Shimura. A versão que acompanha o texto, no entanto, é anterior ao disco; é uma gravação caseira, de voz e violão, enviada à época pelo artista a pedido da revista.

Nem vem é uma canção despretensiosa, aliás, como muitas boas canções costumam ser; tem quatro acordes, uma melodia de poucas notas, letra curta e as redundâncias que a trazem mais para perto de nós. Acredito que nada que se diga sobre uma canção poderá substituir a sensação que temos ao escutá-la, porque a música nos pega pelos sentidos — também pelo intelecto, mas com protagonismo dos sentidos, os quais dispensam qualquer entendimento. Por mais que nos imbriquemos nos meandros de seu mecanismo, de suas relações internas insuspeitadas, nada disso ainda será capaz de adentrar a zona de mistério resguardada por ela e pelo ouvinte a cada audição. Feita essa breve mea culpa, vamos finalmente ao esforço vão. A letra diz assim:

Nem vem
não vou esperar ninguém.
E se a gente se espalhar outra vez…

Vai grudar no teto
e se não der certo
tem o chão…

Mais um rápido desvio: muitos sabem, mas não custa insistir: a letra acima é insuficiente; é preciso ouvir a canção; pois ela é, no mínimo, a união de letra e melodia. Outros elementos também fazem parte: harmonia (acordes), arranjos, timbres, performance, enfim, tudo que estiver de alguma forma impresso no registro sonoro ou na apresentação ao vivo — são as relações complexas entre todos esses elementos, sobretudo palavra e som, que criam sentidos e sensações. É também assim com esta gravação caseira de Nem vem.

Poderia definí-la sumariamente como uma canção que trata do rompimento de uma relação amorosa, no caso, o momento seguinte a ele, a tentativa de reaproximação — temática recorrente nos melhores exemplares do cancioneiro lírico. O que me chama atenção, porém, é que nela subjaz uma postura comum a nossa época, em que é de bom tom que a exposição dos desejos não espelhem a urgência dos sentidos, freados pela razão, que insiste em uma ideia de relação amorosa relaxada, do tipo quando rolar rolou, quando não rolar tudo bem, tem o chão — e do chão não passa. Sua grande beleza reside, contudo, não na postura confiante nesse tipo de comportamento, mas no inconformismo vital com a escolha pela via racional, na dúvida que o corpo não quer calar, na tensão entre o respeito à liberdade da pessoa amada e o desespero de querer fundir-se com ela.

A tensão aparece na letra já nos dois primeiros versos. Ao mesmo tempo em que o cantor afirma que não vai esperar mais ninguém, a formulação nem vem é ambígua: diz literalmente para a pessoa não vir (contradizendo o verso seguinte, não vou esperar ninguém), enquanto, com muita intimidade, percebida no tom coloquial da expressão, lhe diz para nem tentar convencê-lo de um fim definitivo, porque não — diz com vontade — não vai esperar ninguém. Nos três primeiros versos, seja a afirmação não vou esperar ninguém um diálogo travado solitariamente ou uma resposta do cantor à pessoa amada, fica evidente sua relutância em aceitar o fim e partir para próxima. Fechando a primeira parte, lança mão da condicional, em tom de pedido: e se a gente se espalhar outra vez

Contudo, o conflito interno já aparente na letra é revelado em todo potencial melancólico na parte musical; precisamente, nas cores tristes e de resignação forçada com que as notas e acordes revestem as palavras aparentemente desencanadas. A primeira e a segunda parte se distinguem uma da outra sobretudo pela mudança total da harmonia e da melodia e por uma intenção também de todo diferente. Já na primeira parte, a melancolia está presente, mas parece que o cantor está em uma conversa relativamente apaziguada ou com a pessoa amada ou (e sempre) consigo próprio, nutrindo o desejo de se espalhar outra vez, ou seja, tentando convencer-se do improvável; quando, enfim, na segunda parte, dá vazão ao transbordamento emocional e quase se pode sentir a delícia dos jogos eróticos, do encontro dos corpos… até a queda: o corte do fluxo fantasioso pela consciência: se não der certo / tem o chão…

A hipótese lançada pelo cantor ao outro e a si mesmo — e se a gente se espalhar outra vez — é a preparação para o mergulho em uma zona de prazer criada pela imaginação. A melodia sobe de tom, o prolongamento das vogais acentuam o conteúdo passional (seguindo a certeira teoria de Luiz Tatit). Os acordes também mudam, saem da regência do modo menor e adentram o maior; vão de uma só vez do introspectivo ao expansivo. A desilusão da primeira parte é preenchida então pela esperança que afirma o encontro: vai grudar no teto. As palavras grudar e espalhar contêm um sabor de som e sentido especiais na canção, contribuindo para tornar palpável o embaralhamento físico dos corpos, os líquidos trocados na relação sexual (secreções, suor, sêmen, saliva). Esse salto no prazer, no entanto, dura pouco, o tempo de um verso e meio, pois logo em seguida a consciência do cantor já prepara a queda.

Esse é o ponto de maior tensão dramática. No verso vai grudar no teto, o cantor aceita incondicionalmente o próprio convite à delícia fantasiosa do encontro amoroso, se joga, e vislumbra o momento suspenso da realização do desejo: o de fundir-se à pessoa amada como seu par exclusivo — o momento, por ser suspenso, é também eterno. As notas da melodia, em contraponto, estão plenas de tristeza e criam um estranhamento com a promessa solar das palavras e da harmonia; após um breve instante, colorido justamente pelo único acorde maior da canção, há uma caída abrupta para o lá menor, retornando ao modo escuro, bem na tomada de consciência da realidade — e se não der certo/ tem o chão… –, da condição partida entre amar e deixar livre para amar. O movimento descendente da harmonia é também acompanhado (e fica mais evidente) pela melodia, que lhe é complementar: depois do extravasamento, no fim do penúltimo verso, justamente na palavra certo, a melodia cai, mostrando o quão infalível é a dureza da realidade, sempre insatisfatória se comparada à imaginação; para em seguida, descer ainda mais, desta vez rumo ao chão, a pior situação prevista.

O convite do cantor à pessoa amada, mediado pela razão e enunciado à revelia dos sentidos, funciona como uma espécie de estratégia, um blefe, tipo “não custa nada tentar, se não der certo, tem o chão”; como tentei demonstrar, é aí que reside a tensão, sintetizada, entre letra desencanada versus melodia comprometida, ou no descompasso entre a aparente displicência do pedido e sua verdadeira intenção apaixonada. Por fim, na escala de intimidade de um quarto, assim como o teto é céu, o chão, limite inferior do qual nem a pior das desilusões amorosas vai nos fazer ultrapassar, soa paradoxalmente como um elogio à realidade, à concretude da vida rotineira, banal, revelada em sua beleza sem filtro, que no entanto é a própria beleza de estar vivo no mundo. Por mais intenso que seja o amor de uma pessoa por outra — o desejo insano de fundir-se com ela –, por mais que um dia tudo isso possa de repente ruir e o mundo parecer que de fato acabou, também isso será fruto da imaginação, porque como diz a canção, se não der certo / tem o chão — e do chão, não passa.

*A foto que ilustra a canção faz parte da série Dialog, de Rudolf Bonvie, 1973.

Bruno Cosentino

Cantor e compositor.

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