Desencontrando Vandré

Por Acauam Oliveira
I

No dia 23 de março, Geraldo Vandré fez uma apresentação no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, ao lado da Orquestra Sinfônica da Paraíba. Um momento histórico que rompe com os quase cinquenta anos de afastamento de Vandré dos palcos, em uma das rupturas mais lamentadas no campo da MPB dos anos 1960. Na memória coletiva do país, Vandré representa o mito maior do artista perseguido e silenciado pela ditadura militar, símbolo da luta e resistência da esquerda contra o golpe.

Contudo, algumas posturas de Vandré ao longo do show causaram certo desconforto e surpresa em parte do público presente. Além de realizar diversas homenagens às forças armadas ao longo da apresentação, o artista proibiu uma manifestante de estender uma faixa em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março, retirando a faixa e conduzindo a moça para fora do palco.

Por mais que seja tentador estabelecer conexões aparentemente óbvias, é justamente esse o movimento a ser evitado. É preciso reconhecer que ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Em um primeiro momento,  há, obviamente, um desconforto pela justaposição da postura pró-militarista de Vandré com seu gesto de proibição da faixa em homenagem à Marielle, uma vez que esta mantinha um forte discurso anti-militarização. Contudo, é possível que Vandré sequer tenha lido o que estava escrito na faixa (como sustentam algumas das pessoas presentes na apresentação): ele simplesmente não queria que ninguém interrompesse seu show de retorno com protestos de nenhuma espécie. Talvez o artista, que abandonou os palcos para dedicar-se à profissão de advogado, não aguente mais ser associado àquela figura algo mítica da época dos festivais e queira apenas voltar aos palcos, apresentando a riqueza de suas composições.

Já tem algum tempo – desde que tornou a aparecer publicamente – que Vandré vêm demonstrando posturas e atitudes que entram em desacordo (aparente?) com aquele imaginário preservado da época dos festivais. Talvez a mais “impactante” delas seja justamente sua postura em relação aos militares: como é que o sujeito que foi perseguido por militares, não só do Brasil, mas também do Chile, e compôs o maior hino de resistência à ditadura militar, pode admirar as forças armadas? Não seria um contrassenso absoluto? Contudo, Vandré é enfático nesse ponto:

“As Forças Armadas propriamente ditas entenderam muito melhor do que a sociedade civil. Nunca tive problemas com as Forças Armadas. Sempre houve uma consideração e respeito entre nós”.

“Para efeito de registro histórico, você, primeiro, não se considera anti-militarista; segundo, não foi maltratado fisicamente durante o regime militar; e em terceiro, você disse o que quis naquele depoimento que você foi forçado a gravar quando voltou do exílio.

 – E quarto, eu tenho uma canção para o Exército Azul (Força Aérea Brasileira)

(Geraldo Vandré começa a dar risada e mostra sua carteira de sócio da FAB)”

Fonte: G1

De fato, para parte da esquerda pouco afeita à dialética e inimiga de complexidades (tudo que Marx não era), a explicação só pode ser a de que Vandré enlouqueceu. Note-se a gravidade da questão: considera-se seriamente que o artista teria enlouquecido (em algumas versões ele teria sucumbido por conta das torturas que, diga-se de passagem, ele afirma nunca ter sofrido) porque sua trajetória real acrescenta ruídos à versão hagiográfica da resistência heroica da MPB contra o regime militar. Vandré é considerado louco para que a imagem vitoriosa de uma ditadura que foi confrontada pela militância universitária de esquerda seja preservada. A categoria “loucura” aqui é mobilizada não para apontar um distanciamento do “Vandré real” com a realidade, mas do “Vandré real” com uma ficção simbólica. O artista é tido por louco porque sua existência macula a versão ficcional. Entre a realidade e o mito, opta-se pelo mito.

O que ocorre nesse caso é um claro movimento de reducionismo de perspectiva, ainda mais radical do que em outros casos, como os de Chico Buarque e Caetano Veloso. Caetano, aliás, é o mestre maior em romper esses lugares pré-estabelecidos, jogando-os a seu favor tanto como forma de promover reflexão quanto como estratégia de marketing. No caso de Vandré, toda a complexidade de sua existência é reduzida não ao conjunto de sua obra, ou sequer a um período de sua vida. O artista é reduzido às dimensões de uma única canção e àquilo que ela representa no imaginário popular: o acalanto hippie “Caminhando – pra não dizer que não falei das flores”. Trata-se de um caso curioso em que a canção apaga o homem, que há tempos deixou de ser aquilo que para ele mesmo é uma personagem distante, substituído pelo Dr. Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, advogado.

De fato, a canção contrapõe flores e canhão, tornando-se o grande símbolo da resistência CIVIL contra a ditadura MILITAR, organizado ao redor da música popular. O problema é que tal equação, ao ser transposta para a realidade, encontra diversas resistências. Ou seja, a conta não fecha. Como bem lembrou o parceiro Douglas Anfra, é um desconhecimento histórico muito grande acreditar que ser de esquerda implica em ser necessariamente contrário ao poderio militar, e que, portanto, elogiar o exército é ser um conservador de direita. É claro que a partir da lógica narrativa da resistência civil à ditadura, que opõe civis a militares, as coisas precisam ser representadas dessa maneira. Sabe-se, porém, que diversos setores da esquerda, inclusive o Partido Comunista, estão longe de ser avessos aos militares. Disputar o exército e a polícia sempre foi uma estratégia adotada pela esquerda que efetivamente pretende chegar ao poder.

Além disso, essa sobreposição da canção ao homem ignora completamente a trajetória pessoal de Vandré, que sempre afirma ter sido abandonado pela esquerda após seu exílio, fazendo questão de enfatizar que quem o acolheu em sua volta ao Brasil foram os militares. Não sem seu preço. Seus pais conheciam pessoas dentro do exército e intermediaram o acordo: Vandré não cantaria mais no país e, em troca, receberia toda atenção possível, tratamento médico, etc. Desde então, estabeleceu-se uma relação de proximidade que permanece até hoje.

Geraldo Vandré deixa tudo às claras, sem esconder sua posição, ainda que não revele todos os fatos. De todo modo, não esconde seus gostos e preferências. No entanto, o público se deixa surpreender quando ele dedica sua apresentação para as Forças Armadas. A conclusão óbvia é que a trajetória real do artista pouco importa nesse caso. O olhar não se dirige para a realidade, e sim para o mito. No caso, o mito que confirma não a trajetória de Vandré, mas o próprio heroísmo de quem olha: o público de esquerda.

A pergunta algo perversa que insiste em se colocar aqui é: até que ponto o desaparecimento de Vandré tem a ver não apenas com a perseguição militar, mas também com a perseguição/abandono da esquerda, que preferiu o mito e, em certo sentido – narrativo –, precisa sustentar em seu imaginário a figura de Vandré enquanto trauma? Não que o trauma não tenha efetivamente acontecido. A questão é: até que ponto a narrativa de esquerda deseja esse trauma?

 

II

O mecanismo em questão não é novo, e nem se limita à relação do público com seus ídolos. Cabe lembrar aqui de um episódio político bastante significativo nesse sentido. Nas eleições de 2014 para governador do Estado de São Paulo, o então candidato Geraldo Alckmin (PSDB) obteve uma vitória incontestável, somando 60% dos votos válidos contra 18% do candidato do PT (Padilha). Alckmin só perdeu em um (1) município do Estado e, mesmo dentro da cidade, ele ganhou em praticamente todos os bairros, inclusive nas periferias, reduto petista até então. Ao longo de todas as pesquisas, nunca deixou de estar à frente. Ou seja, não foi uma vitória, e sim uma lavada.

No entanto, algo interessante aconteceu no dia seguinte. Quem acompanhava as discussões não só de petistas, mas de diversos outros grupos de esquerda nas redes sociais, notava que boa parte das pessoas parecia verdadeiramente surpresa com a derrota, sem compreender como aquela “tragédia” pôde acontecer. Ora, pode-se entender tal sentimento de surpresa caso algum tipo de disputa real tivesse efetivamente acontecido. Entretanto, não houve disputa nenhuma, e sim um massacre a céu aberto, à vista de todos. A única coisa que pode explicar tal surpresa é, pois, o fato do campo progressista não estar prestando atenção àquilo que se passava bem à sua frente. Ou seja, a esquerda estava olhando apenas para aquilo que lhe interessava e, quando a derrota veio, foi incapaz de oferecer alternativas, porque sequer entrou na disputa de fato.

Muitas pessoas lamentavam ou se irritavam com o suposto grande responsável pela derrota petista: o “pobre de direita”, categoria que teoricamente deveria expressar um paradoxo. Ora, só existe paradoxo caso se considere que a esquerda está sempre do lado certo da história, independentemente do que ocorra na prática. Precisamente o tipo de miopia que explica sua derrota nesse caso. O militante ou simpatizante de esquerda foi incapaz de compreender a lapada que iria tomar – muito embora esta não fizesse a menor questão de se esconder – porque estava muito seguro de sua imagem do “povo” ideal, naturalmente de esquerda (pois ser de esquerda é estar imediatamente assegurado de sua proximidade com as causas dos fracos e oprimidos, mesmo quando não se está). Enquanto isso, a direita encontrava formas de catalisar o sentimento antipetista a seu favor.

Da mesma forma que o pobre ideal, o mito Vandré não pode ser arranhado, principalmente por ele mesmo. Para seu desespero, o artista se tornou peça chave no enredo heroico da história da MPB como resistência à ditadura, derrotada graças à pressão da sociedade civil. Nesse enredo, é quase como se os militares tivessem desistido do poder só para não precisar ouvir mais um estudante com violão cantando “caminhando e cantando e seguindo a canção”… Essa versão não pode ser contestada, caso contrário, seríamos obrigados a imaginar que talvez a ditadura não tenha sido necessariamente derrotada (como disse certa vez Tales Ab’Saber: “o que resta da ditadura? Tudo, exceto a ditadura”), mas se tornado desnecessária justamente por ter sido vitoriosa. Ou o que é ainda pior: poderíamos imaginar que a MPB clássica talvez não tenha sido tão subversiva quanto se imagina. O que, obviamente, só pode ser uma heresia de direita.

O apego da esquerda à própria imagem, que se sobrepõe ao real, está longe, pois, de ser um dado isolado. Trata-se de um sintoma recorrente, fortalecido em momentos como o nosso, quando as bases reais de mobilização parecem cada vez mais distantes.

Não por acaso, diversas manifestações de esquerda se utilizam de “Caminhando” em seus atos. Não porque a canção consiga dar conta de efetivamente mobilizar forças no presente, mas por aquilo que nela se reproduz de uma imagem poderosa, congelada no passado em um claro sinal de “falta de imaginação” no presente. Sintomaticamente, talvez seja essa a canção de Vandré que mais envelheceu (basta compará-la com a vitalidade de “Disparada”): a utopia hippie se degenerou em consumo de drogas para yuppies; o “povo” parece bem mais disposto a marchar com o MBL e com seus pastores do que com artistas de esquerda; canções engajadas não engajam mais ninguém; a militarização segue cada vez mais ostensiva. Nesse sentido, a distância da canção de seu criador não deixa de ser um sintoma, a seu modo, de uma profunda crise de imaginação política.

Acauam Oliveira

São paulino, maloqueiro e sofredor - o maior de seus talentos. Professor de Literatura e Estudos Culturais da Universidade de Pernambuco. Aspirante a blogueiro fitness. É editor do mais hipster dos sites de cultura do Brasil, o CHIC Pop.

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