“Canções Iluminadas de Sol: entre tropicalismos e manguebeats”, de Carlos Gomes

Por Pérola Mathias

Canções iluminadas de sol: entre tropicalismos e manguebeats é o nome do recém-lançado livro de Carlos Gomes, editor da revista Outros Críticos, que completa em 2018 dez anos de um trabalho primoroso de crítica musical – elaborada a partir de Recife, mas abrangendo toda produção nacional. Resultado de sua dissertação de mestrado, o livro tem o mérito de apresentar o texto acadêmico de uma forma leve, entre o literário e o analítico. O autor prova que uma boa discussão nunca se esgota, pois ao comparar dois movimentos artísticos que já foram e continuam sendo exaustivamente discutidos dentro e fora da academia, não se detém em obviedades e encontra um caminho específico – propõe um trabalho que parte, de forma primordial, da escuta das canções.

O livro traz o percurso afetivo que tais canções tiveram em sua vida, o que, além de chamar o leitor para dentro do livro, rompe a sisudez acadêmica num ponto fundamental: lidamos com música sensorialmente. A forma e a história de como ela nos afeta é fundamental para o modo como a compreendemos. E fica muito mais interessante ver que toda discussão ali presente parte da maneira como um garoto olindense nascido em fins dos anos 1980 toma contato pela primeira vez com as canções da Tropicália e do Manguebeat.

O ganho acadêmico do trabalho de Carlos Gomes é desenvolver a categoria de canção crítica, cunhada por Santuza Cambraia Naves – que foi pesquisadora de música popular, professora do departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio e coordenou o Núcleo de Estudos Musicais do CESAP da Universidade Candido Mendes. A canção crítica dá conta de um aspecto fundamental que caracteriza a produção de canções no Brasil em fins da década de 1950 e início dos anos de 1960, que é a incorporação de um “componente crítico” em sua constituição, tornando a canção popular “o lócus por excelência dos debates estéticos e culturais”. A canção crítica, nesse sentido, vai além da canção engajada ou de protesto, permitindo que ela seja um meio de experimentação na forma e/ou no conteúdo – “operando duplamente com o texto e o contexto, com os planos internos e externos”, nas palavras da própria Santuza. É um discurso crítico sobre a cultura, a política e a sociedade. A autora identifica o compositor “crítico” como um intelectual, categoria que Carlos retoma. Se estes papéis eram antes reservados aos veículos da alta cultura, a canção, ao assumir este papel, acaba por cumprir também a função de promover uma espécie de “educação sentimental” nos ouvintes, sobretudo nos jovens. Assim, debruçando-se sobre letras, melodias, arranjos, interpretações, performances, no visual e na linguagem das canções, Carlos Gomes vai desenvolvendo sobre ambos os movimentos analisados, sempre ilustrando seus argumentos com as letras das músicas ou com trechos de textos importantes da bibliografia produzida.

Em Canções Iluminadas de Sol, a Tropicália e o Manguebeat são ressaltados como momentos de desconstrução, em que ambos os movimentos articularam uma releitura da tradição para explorar novas sonoridades. Carlos desenvolve a ideia de que “o jogo de desconstrução dos gêneros era uma atitude crítica e poética tanto dos músicos do tropicalismo quanto do manguebeat”. E demonstra como as proposições de ambos entre “som universal e local são reconstruídas nas canções críticas” como Parque Industrial e Computadores fazem arte, tentando driblar o dualismo dos conceitos que geralmente são aplicados às análises.

No lançamento do livro em São Paulo, Carlos convidou para o debate Stela Campos, Siba e Romulo Fróes. A discussão mostrou  que o autor teria muito a contribuir também no sentido de esmiuçar ainda mais a rede de sociabilidade, criação e influências dos artistas e músicos de Recife na década de 1990. No entanto, o livro privilegia a análise das canções principais que formam o imaginário dos dois movimentos, no que é muito bem sucedido em sua proposta. O livro sai ainda no marco dos cinquenta anos da Tropicália, destacando a potência estética, política e social da produção artística brasileira em dois momentos históricos muito distintos.

Pérola Mathias

Socióloga, pesquisa música e gosta de fotografar shows. É editora da Revista Polivox e do site Poro Aberto.

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