Canções em tempo de chumbo

Por Marcos Lacerda

Não é segredo para ninguém que o Brasil vive uma situação delicada e extremamente complexa desde as chamadas “jornadas de junho”. Algo se abriu, para o bem e para o mal, e o pacto de conciliação de classes se esfarelou, fazendo emergir monstros e fantasmagorias. A canção popular brasileira mais inventiva vem acompanhando o processo com muita atenção e, em alguns casos, sugerindo formas de compreensão aguda e sensível ao “espírito do tempo” brasileiro. É este o tema do meu primeiro texto para a nova seção da Polivox.

Existem, pelo menos, dois álbuns que anunciam – de forma complexa, através da mediação estético-formal – o nosso tempo, sombrio, mas ao mesmo tempo denso e cheio de possibilidades em aberto. Como se dissessem: “não nos entreguemos fácil à resignação, pois a resignação, num país tão brutal e cruel com os trabalhadores pobres (homens e mulheres), é um luxo burguês”. Eu estou me referindo a Encarnado (2014), da Juçara Marçal e De baile solto (2015), do Siba. As canções que abrem os dois álbuns apresentam essa ambivalência, entre a constatação do terror e o desejo vivo de enfrentá-lo e superá-lo. No primeiro, “Velho Amarelo”, diz abertamente, de forma áspera – “Não diga que estamos morrendo/ hoje, não”; no segundo, “Marcha Macia”, após o retrato irônico e crítico da aparição da “nova ordem” conservadora, há uma possibilidade em aberto

“Só um detalhe quase insignificante
embora o plano seja muito edificante
tem sempre a chance de alguma estrela irritante
amanhecer irradiando o dia”

A relação entre a constatação do horror e da vitória do conservadorismo mais tacanho e empobrecedor não significa entrega, recusa ao enfrentamento, muito ao contrário. Em Damião, canção que também pertence ao Encarnado, o chamado é para o ato (Dá neles Damião/ Mira no meio da cara/ Dá com pé, com pau, com vara/ bate até virar a cara da nação), como reação altiva e consciente. Mas não fiquemos apenas nestes álbuns. Ó (Romulo Fróes/Nuno Ramos), canção do álbum Barulho feio (2014), de Romulo fróes, antecipa a ambiência de ódio difuso que vivemos hoje no brasil: (fala, um ódio novo/ olha, um ódio novo/ ouve, um ódio novo). Criolo, na canção “Menino mimado”, do álbum “Espiral de ilusão” (2017) fala em disciplina, organização, concentração de força e desconfia acertadamente da dispersão delirante tipicamente pequeno-burguesa (não, eu não aceito essa indisciplina/acho que você não me entendeu). Ele associa a sua canção a um realismo bem pensado (Pois quem não vive em verdade, meu bem, flutua/ nas ilusões da mente de um louco qualquer), concluindo com o refrão que chama à luta (este abismo social requer atenção/foco, força e fé, já falou meu irmão), ecoando, por sua vez, a bela “Lion-man”, do consagrado “Nó na orelha” (2012), com a seguinte imagem poética “Vamos às atividades do dia/ lavar os copos/ contar os corpos/ e sorrir a essa morna rebeldia”

Por fim, o mesmo pode se ver em “No tranco”, canção que abre “De cara no asfalto” (2016), de Paulinho Tó. A constatação da chegada da crise econômica no Brasil, mais um movimento sinistro do Capital, não impede o desejo de afirmação pessoal e coletiva, política e estética, anunciando, ao mesmo tempo, a emersão de novos atores sociais na sociedade brasileira contemporânea

Mas tô firmão aqui, vou pra frente
Café com pão, enxaguando os dentes
Carregando o rojão
Quem não carrega é demente
Vou contornando o leão
Com samba-gospel, rap-salvação

Marcos Lacerda

Sociólogo e crítico de música. Foi Diretor do Centro de Música da Funarte, idealizador do projeto Contemporâneos na Funarte e organizador do volume de Música, para a coleção Ensaios Brasileiros Contemporâneos

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