5 indicações culturais

Por Marcos Lacerda

Paulinho Tó, Ao amigo André

Eu continuo vidrado no Paulinho Tó, o jovem e brilhante compositor paulista, um lírico no auge do neoliberalismo brasileiro, que já lançou dois álbuns, “Temporal” (2014) e o incrível “De cara no asfalto” (2016), este último certamente um dos melhores álbuns lançados no Brasil nos últimos anos, pela inteligência crítica, precisão poética e intensidade musical. Aqui, uma versão da canção “Ao amigo André” (Temporal, 2014), um fado que desenha imagens com um lirismo que beira o nonsense, uma fábula que envolve mendigos, bêbados, ladrões, princesas, damas e meretrizes, tudo misturado à bela voz e interpretação de Mariana Mayor.

 

Dexter, Pedro Sá Moraes e o projeto Transversais do Tempo

No final de fevereiro foi apresentado, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, a terceira versão do projeto Transversais do Tempo, idealizado pelo crítico e artista da canção Pedro Sá Moraes. Tive o privilégio de ser um dos curadores dos 4 espetáculos musicais, ao lado do Thiago Thiago de Mello. Tivemos como apresentadora a maravilhosa Roberta Martinelli, que faz o trabalho de mediação crítica mais importante para a canção brasileira contemporânea. Foram 8 artistas, apresentando espetáculos musicais em dupla. Um dos mais impressionantes foi a que se deu entre Pedro Sá Moraes e Dexter. O primeiro, apresentou um show com interpretação teatral, como um bardo, aqueles poetas da canção que só com o violão geram labaredas, tudo com gosto épico, um afeto mais épico que lírico e, nisso, em sintonia com a forma da canção do rap, que é também mais épica que lírica, que se constrói com longas narrativas, heróis, heroínas, tragédias, dramas e dores do povo. O segundo, apresentou um conjunto de canções de alto nível, alguns dos clássicos da canção brasileira mais contemporânea, caso de “Oitavo anjo”, “Saudades mil”, “Eu sou função” e “O homem na estrada”. Ambos conversaram sobre política, sociedade brasileira, canção e criação artística. Tudo muito bonito, forte e necessário

 

 

Paulo Bragança e o fado

Lisboa é uma cidade boa para fazer andanças distraídas. Esquinas, ruas, vielas, becos, largas avenidas, cafés, bares, livrarias, a cidade oferece um mundo de vivências intermináveis e que se renovam sempre. A canção popular está presente em todos os lugares, junto à literatura e à história. Castelos medievais, Igrejas, praças, estátuas e o Tejo ao longe mirando tudo. Não dá para não pensar no fado. Vi, na televisão de um restaurante em anjos, a imagem bonita de Antonio Zambujo cantando com seu violão minimalista e sua voz moderna e inventiva. Vi, também, um trio cantando fados antigos na tasca do chico. Mas o mais interessante foi o pequeno show de Paulo Bragança, uma espécie de punk fadista, com um saiote escocês, coturnos, cabelo pintado e a voz ecoando Amália, e, por que não?, o próprio Zambujo. Assisti um pequeno show dele na FNAC. Uma das canções cantadas ali é a que segue neste vídeo, “Rosa da Noite”

 

“Ainda aqui sonhando”, de Léo Cavalcanti

Em 2017, no Semente, pequeno bar que existia na Lapa, no Rio de Janeiro, assisti um show do Leo Cavalcanti. Ele parecia Camaron de la Isla, com seu canto cheio de arabescos e tremolos. Era possível sentir o movimento do som em espiral ao ouvir a sua voz, que dizia palavras de tantas canções bonitas, dos álbuns “Religar” e “Despertador”, e outras mais novas. Entre elas, “Ainda aqui sonhando”, um lamento pela apreensão de um encantamento que se foi repentinamente, uma canção de amor sem enlace, mais próximo ao desejo e ao antegozo da possiblidade do que propriamente da sua realização. Além disso, a canção tenciona desejo individual e contexto político e histórico, num momento especialmente delicado para o Brasil e para o mundo. Os versos “barragens se rompendo” remete ao episódio do crime ecológico em Mariana; “fascismo a todo vapor”, ao conflito político atual no Brasil; “o mundo explodindo”, ao novo contexto da geopolítica internacional, com Trump, Coreia do Norte, Putin e guerras no Oriente Médio; ao lado do amor que era promessa de felicidade, mas se foi repentinamente, e a solidão do poeta perdido de si

Pessoas sendo mortas e eu aqui com medo

De ser alguém aquém de quem eu sou

De não dar conta de cantar o canto dos mesmos sonhos

Canto de amor

 

O canto e os corpos de Bruno Cosentino

O canto do Bruno Cosentino é uma das mais bonitas experiências de acesso ao Belo, ao menos em canção brasileira contemporânea. Desde os tempos do seu primeiro grupo, o Isadora, até os álbuns individuais, a beleza, limpidez e clareza do seu canto é uma evidência para todos nós. O modo como a sua voz atravessa as palavras das canções, com apuro crítico e sensibilidade bem destilada, é um dos acontecimentos mais relevantes da canção brasileira mais recente. Nos seus últimos álbuns, Bruno vem trabalhando muito também com a encenação do palco, em especial, a presença do corpo, o corpo menos como instância física e mais como movimentação que elabora e sugere sentidos. As canções do seu último álbum, “Corpos são feitos para encaixar e depois morrer”, deixam isso muito claro. O corpo como som e palavra. E a palavra e o som como canto do movimento do corpo na voz em movimento.

 

 

Marcos Lacerda

Sociólogo e crítico de música. Foi Diretor do Centro de Música da Funarte, idealizador do projeto Contemporâneos na Funarte e organizador do volume de Música, para a coleção Ensaios Brasileiros Contemporâneos

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